Bye-bye Ford: para os mesmos problemas, as mesmas soluções?

Por Adriano Pires, Pedro Rodrigues

Em 1927, no munícipio de Aveiro, no estado do Pará, um certo empresário norteamericano aterrissou para um projeto ambicioso.

O Presidente Washington Luís, o último da Republica Velha, governava o Brasil, então uma potência na exploração de uma commodity mundial, o látex, extraído das seringueiras e transformado em borracha.

Foi justamente isso que atraiu aquele empresário americano, Henry Ford, ao Brasil. A indústria do automóvel estava surgindo nos Estados Unidos, e a Ford lançava seus Ford “T” no mercado. Para garantir seu suprimento, o projeto de Ford era montar no país a maior fábrica de pneus do mundo, aproveitando a produção do látex brasileiro.

Numa empreitada audaciosa, Ford negociou uma área de mais de 14 mil km2 e fundou o distrito agro-industrial de Fordlândia. Empolgado com o empreendimento, o governo brasileiro concedeu à Ford uma série de benefícios e isenções de impostos e taxas para a exportação de pneus.

A Ford chegava ao Brasil já com incentivos fiscais. Por uma série de fatores locais, incluindo problemas com trabalhadores, logística em plena floresta amazônica e mesmo a produção de látex em outros lugares do mundo, o projeto foi se mostrando inviável.

(O livro “O Ladrão do Fim do Mundo” conta que mudas de seringueiras brasileiras foram levadas para o Jardim Botânico de Londres, e de lá chegaram à Ásia, criando uma indústria de borracha concorrente à brasileira — um dos primeiros crimes de biopirataria do mundo.)

De volta à Ford: sem experiência na produção agrícola e sem o conhecimento dos problemas de uma área com a complexidade da Amazônia, a Ford não conseguia extrair o látex das seringueiras nas quantidades que imaginava, entrou em conflito com os trabalhadores locais e com o próprio governo.

Começava ali a ideia, tão presente nas teses nacionalistas implantadas no país, de suspeitar de investimentos estrangeiros feitos na Amazônia. A Ford encerrou o acordo com o Brasil em 1945, deixando como legado o município de Fordlândia, perdido no meio da Amazônia. O Brasil, por sua vez, jogou fora a oportunidade de aproveitar a sua vantagem comparativa de ser um grande player internacional na venda de látex em pleno ciclo da borracha.

Em 2021, de certa forma, a história se repete. A Ford anunciou o fim das suas atividades no Brasil, com o fechamento das suas operações em Camaçari e Taubaté. A saída do país encerra um segundo capítulo da história da marca no Brasil.

Apesar dos quase 90 anos de diferença de um capítulo para o outro, nossa estratégia para atrair empresas permaneceu a mesma: a concessão de subsídios e benefícios fiscais.

Nos últimos 63 anos, o país gastou os proverbiais rios de dinheiro em benefícios fiscais, ajudas e incentivos para as montadoras, com resultados no mínimo questionáveis.
Não faltaram, em diferentes governos, programas para tentar corrigir ineficiências e custos brasileiros para manter as montadoras no país a qualquer preço.

Mesmo assim, mais uma vez a conta chegou. O custo Brasil superou os incentivos, e algumas indústrias são obrigadas a fechar suas operações.

O tradeoff entre os incentivos fiscais e o Custo Brasil parece não ser suficiente para manter as empresas aqui.

As duas saídas da Ford do Brasil são situações muito semelhantes de políticas econômicas e públicas equivocadas e ineficientes em diferentes momentos da história. Continuamos a usar a mesma receita para corrigir os mesmos problemas, e esperamos resultados diferentes…

O Brasil continua jogando para debaixo do tapete seus reais problemas, e empurrando com a barriga as reais soluções.

Ao invés de aceitarmos o desafio de reformas ousadas como diminuir os encargos trabalhistas, simplificar o labirinto tributário e dar segurança jurídica e regulatória aos investimentos, sempre preferimos a fórmula simplória e errada de criar uma isenção aqui, outra ali.

Conceder subsídios ou incentivos fiscais pode ser uma política boa para o país, desde que os resultados maximizem as nossas vantagens comparativas, gerando empregos e renda. Mas para isso, é preciso um plano de país, como foi feito em diversos países asiáticos.

No mundo pós-pandemia, precisaremos de projetos que aumentem a nossa participação no comércio mundial. Nossa grande vantagem comparativa é sermos grandes produtores de commodities agrícolas e minerais, como a soja e o açúcar, passando pelo minério de ferro e o petróleo — tudo que o mundo precisa para voltar a crescer.

Porém, por um complexo de vira-lata, não entendemos a importância que possuímos no cenário mundial como grandes produtores dessas commodities. Com isso, não conseguimos aproveitar nossas vantagens comparativas nesses setores, perdemos oportunidades, perdemos mercado e vamos ficando cada vez mais para trás no jogo.

O governo — ao invés de incentivar um polo de montadoras de automóveis e de indústrias do século passado — deveria focar esforços na construção de uma infraestrutura essencial de alta qualidade e baixo custo, envolvendo portos, estradas, ferrovias e dutos.

Isso reduziria o custo Brasil e nos tornaria ainda mais competitivos como fornecedores de commodities para o planeta. Não há nada melhor para gerar empregos do que investimentos em infraestruturas.

Precisamos abrir nossa cabeça, acordar para o mundo, mudar de estratégia e reinventar o Brasil.

 

 

Fonte: BrazilJournal
Tags: Adriano Pires, Benefícios Fiscais, Ford, Pedro Rodrigues, Saída do Brasil, Subsídios

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