O papel dos minerais na transição energética

Por Adriano Pires

IEA mostra importância dos minerais

Desafio é cumprir metas sustentáveis

Demanda mundial por minério é alta

Transição energética requer cuidados

 

O meio ambiente não é mais um coadjuvante nas agendas econômicas mundiais. Virou o ator principal. Seja desenvolvido, em desenvolvimento ou subdesenvolvido, todos os países estipularam metas mais ou menos ambiciosas para redução das emissões de carbono. Se essas metas irão sair ou não do papel, é outra história.

Recentemente, a IEA (Agência Internacional de Energia) divulgou um relatório trazendo um tema pouco discutido nas mídias e de extrema importância para o sucesso da transição energética: o papel dos minerais (eis a íntegra – 5 MB). Em seu longo e detalhado relatório, a agência apresenta estudos sobre o papel de diversos minerais na transição energética e chama atenção para aspectos ignorados por muitos governantes e analistas em todo mundo.

Mas qual é o papel e a importância desses minerais? De acordo com o relatório da IEA, os tipos de recursos minerais usados variam de acordo com a tecnologia. Lítio, níquel, cobalto, manganês e grafite são cruciais para o desempenho, longevidade e densidade das baterias. Elementos de terras raras são essenciais para ímãs permanentes que são vitais para turbinas eólicas e motores de veículos elétricos. As redes de eletricidade precisam de uma grande quantidade de cobre e alumínio, sendo o cobre a pedra angular de todas as tecnologias relacionadas a expansão da eletricidade.

Toda essa comoção e ansiedade mundial em acelerar a transição energética gera preocupação pelo lado da segurança energética. A antecipação das metas relacionadas ao Acordo de Paris divulgadas por alguns países, vai causar um aumento considerável da demanda de minerais para viabilizar tecnologias limpas até 2040. Para uma transição ainda mais rápida, de modo a atingir emissão zero globalmente até 2050, seria necessário 6 vezes mais insumos minerais em 2040 do que temos hoje disponíveis.

O relatório mostra que a transição para a energia limpa significa uma mudança de um sistema com uso intensivo de combustível para um sistema com uso intensivo de materiais.

Outros pontos relevantes apresentados pelo relatório são a concentração geográfica, o prazo de desenvolvimento de novos projetos, a qualidade dos recursos, questões ESG (Environmental, Social and Corporate Governance, em inglês) e a exposição aos riscos climáticos.

Atualmente, a produção da maioria dos minerais é geograficamente mais concentrada do que a do óleo e gás natural. De acordo com os dados da IEA, a África do Sul e a República Democrática do Congo são, respectivamente, responsáveis por cerca de 70% da produção global de platina e cobalto. Enquanto a China foi responsável por 60% da produção global de elementos de terras raras em 2019.

Para empresas que produzem minerais importados, essa concentração de elementos fundamentais na produção de seus materiais pode ser rapidamente afetada por mudanças regulatórias, restrições comerciais ou instabilidade política em um pequeno número de países. Outros riscos envolvem a capacidade de construção de nova infraestrutura de minas e a preocupação com a qualidade da matéria que compõe os minerais.

Atualmente, o mundo não possui capacidade para suprir a demanda por minerais e há controvérsias se existirá capacidade no futuro. Dados da IEA mostram que um carro elétrico precisa de 6 vezes mais insumos minerais do que um carro convencional e uma usina eólica onshore requer 9 vezes mais recursos minerais do que uma usina movida a gás de mesma capacidade. De acordo com dados de 2010 a 2019, a média para a entrada de produção de uma mina levava 16 anos: 12 anos para estudos de exploração e viabilidade e 4 a 5 anos para a fase de construção.

Porém, o relatório não traz apenas notícias preocupantes. Algumas soluções são discutidas para solucionar os riscos apresentados. A tecnologia pode ser uma solução não apenas na criação de novos produtos ou maquinários, mas também pode auxiliar na redução de custos por meio da reciclagem.

Ao contrário do petróleo, que é queimado continuamente, os minerais e metais são materiais permanentes que podem ser reutilizados e reciclados continuamente utilizando tecnologias adequadas. É importante termos em mente que minerais precisam de muito mais energia para serem produzidos por unidade de produto, resultando em maiores emissões do que outras commodities.

Como colocado no relatório do IEA, riscos para a confiabilidade, acessibilidade e sustentabilidade do fornecimento de minerais são administráveis, mas são reais. Sendo assim, é bom termos atenção que transição para uma matriz energética limpa não será simples e não será rápida. A necessidade de uma matriz mais limpa é um fato, mas a maneira como será feita ainda é debatida de forma ideológica e mesmo emocional.

 

 

Fonte: Poder360
Tags: Adriano Pires, CBIE, CBIE na Mídia, Economia, Energia, Energia elétrica, Minerais, Transição Energética

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