A crise do petróleo, por Adriano Pires

Há risco de manutenção dos preços

Preço baixo não interessa ao produtor

Empresas devem controlar os custos

Adriano Pires para o Poder360.

Estação de Petróleo da Saudi Aramco em Abqaiq. A maior instalação de processamento de petróleo bruto do mundo antes dos ataques, em outubro de 2018 (Foto: Reprodução/Saudi Aramco)

A Arábia Saudita e a Rússia, que desde 2016 haviam concordado em gerenciar o mercado de petróleo, entraram em desacordo. A Rússia não concordou com a proposta Saudita de cortar em 1,5 milhão de barris por dia (b/d) o suprimento de petróleo, argumentando que tal medida serviria apenas para apoiar um maior crescimento da produção de petróleo pelos Estados Unidos.

A Arábia Saudita resolveu dobrar a aposta e iniciar uma guerra inesperada. Retaliou a atitude russa baixando seus preços e prometendo liberar sua capacidade não utilizada no mercado de petróleo.

Consequentemente, os preços do petróleo responderam com uma queda superior a 30%, uma das piores já registradas em um dia. A Rússia está cética quanto à eficácia dos cortes na oferta da OPEP+ a longo prazo. Isso pelo fato que o crescimento da produção de petróleo nos Estados Unidos tem sido consideravelmente mais rápido do que o crescimento da demanda mundial. Os russos acreditam que essa estratégia de cortes feita pela OPEP+ facilitou o avanço dos EUA no mercado de petróleo e gás natural.

A Arábia Saudita, embora tenha concordado nos últimos anos com os argumentos russos, dessa vez teve uma posição de manter os cortes de produção. Diante de evidências de que o forte crescimento da produção norte-americana estava em desaceleração nos últimos meses, a Arábia defendeu que os cortes deveriam permanecer por mais um ou dois anos.

Após esse período, à medida em que a demanda superasse o crescimento da oferta a OPEP+ iria recuperar a sua participação no mercado. Embora sejam claras as diferenças ideológicas entre Arábia Saudita e Rússia, a última reunião realizada pela OPEP+, no início de março, deteriorou a relação de como fazer a gestão do mercado do petróleo. Os representantes russos recusaram a proposta de corte na produção, considerando que a determinação tornava a Rússia subordinada à Arábia Saudita na OPEP+ e não um parceiro igual.

A resposta saudita foi inundar o mercado de petróleo com sua capacidade ociosa de produção e iniciar uma guerra de preços. O fato é que a Arábia possui a capacidade técnica para produzir 12,5 milhões de b/d. No entanto, a utilização da capacidade máxima pelo reino saudita exigiria despesas adicionais, o que parece inviável diante dos baixos preços da commodity. Já a capacidade disponível da Rússia é muito mais
limitada, estimada em algo de 225 a 330 mil b/d, não superando a 2-3% da produção do país.

Diante do cenário, a dúvida que paira é a de quem vai se render primeiro. A Rússia declarou que o fundo nacional tem suporte para amparar os gastos do governo por 6 a 10 anos, caso os preços do petróleo permaneçam no patamar atual. Por outro lado, um período prolongado de baixos preços do petróleo pode ser insustentável, sem que a Arábia realize um ajuste drástico em seu planejamento fiscal. Em algum momento,
os sauditas terão que decidir se sua atual estratégia de oferta de petróleo vale o custo doméstico.

O surto do coronavírus e o consequente colapso da OPEP+ criaram uma situação inédita para os preços do petróleo, com uma demanda em declínio e uma oferta crescente. O surto de coronavírus evoluiu mais rápido do que o esperado e isso turbinou a crise econômica mundial. A propagação da doença a nível global elevou o nível de preocupação. Com a finalidade de impedir a propagação da doença, a principal recomendação é o isolamento. Esse isolamento reduzirá a demanda de combustíveis.

Isso acentuará a situação de excesso de capacidade com queda na demanda. Preços baixos do barril de petróleo e crise econômica mais acentuada com previsão de que 2020 será um ano perdido levará no setor de óleo e gás natural, a falências de empresas com baixa alavancagem, extremo corte de custos em todos os níveis da cadeia de suprimentos, atrasos nas decisões de investimento, fusões para reduzir custos indiretos e criar sinergias etc. No entanto, desta vez a indústria parece estar menos bem preparada para suportar um choque de preços.

Os níveis de endividamento da indústria em todo o mundo, hoje, estão significativamente mais altos do que em julho de 2014, antes da última queda do preço do petróleo. A manutenção dessa guerra de preços provavelmente exacerbará as piores características do mercado: atrasos, desinvestimentos, perda de conhecimento técnico, disponibilidade limitada etc.

Enquanto a Arábia Saudita perceber sustentabilidade econômica na sua guerra de preços, ou a Rússia considerar que seus objetivos estratégicos estão sendo alcançados, há o risco de manutenção dos atuais níveis de preços do petróleo. Mas, preços baixos do petróleo não interessam a nenhum pais produtor nem as empresas de petróleo. Portanto, alguém terá que ceder. Enquanto isso, as empresas de óleo e gás devem se concentrar em manter um balanço forte, disciplina de capital, controlar os custos esperando o novo ciclo de crescimento da economia.

(Fonte: Poder360)

Adriano Pires é sócio fundador e diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE).

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