Momento de Transição

Por Adriano Pires, para O Estado de S.Paulo

Após 20 anos da abertura e da criação de concorrência no segmento de Exploração e Produção(E&P), parece que chegou a hora desse mesmo movimento ocorrer no refino e no gás natural.

Esse movimento que foi iniciado no governo Temer e que tem continuidade no governo Bolsonaro, parece que veio para ficar e dará uma cara nova ao setor de petróleo e gás natural. O momento é de buscar soluções para os principais gargalos da cadeia, o que passa pelo diagnóstico dos problemas, a compreensão dos fundamentos do setor e a elaboração de políticas estruturadas e bem comunicadas.

Um dos principais entraves para atrair investimentos e aumentar a competição é a insegurança e a instabilidade jurídico-regulatória. O excesso de agentes atuando em benefício de agendas pessoais e a grande quantidade de programas de governo sem diretrizes claras de atuação e desvinculados de uma agenda do Ministério de Minas e Energia (MME) são fatores que contribuem para esse cenário. É o MME que tem capacidade para articular os interesses dos diferentes segmentos da cadeia, munido de estudos da Empresa de Pesquisa Energética (EPE).

Para traçar uma estratégia eficaz é indispensável que haja um entendimento claro dos fundamentos do setor pelos agentes e formuladores de política. Na cadeia de combustíveis, por exemplo, os impostos mais o custo do petróleo, que oscila com a cotação do petróleo e do câmbio, somam juntos 70 a 80% do preço final. Para o gás natural, é fundamental que não se confunda segmentos regulados, que são concessões do poder público, com monopólios.

No setor de óleo e gás a movimentação de moléculas é cerca de 10-20% do custo da cadeia, e não existe qualquer discussão sobre como fomentar investimentos em modais de alto volume, dutos e terminais, sem que haja um horizonte de investimentos. Portanto, é necessário incentivar o crescimento da infraestrutura de energéticos, produzidos localmente (gás natural e etanol), além de investimentos para importação do ¨short¨, visando aumentar a competitividade no curto e longo prazos.

Nesse sentido, os programas de governo são importantes para o desenvolvimento do setor, centralizando as iniciativas sob a coordenação do MME. O Novo Mercado de Gás é uma oportunidade para garantir o livre acesso às infraestruturas essenciais do setor nas etapas de escoamento, processamento (UPGNs) e transporte de gás natural, remunerando de forma adequada a Petrobras.

Além disso, deve-se criar condições para comercialização do gás natural de vários fornecedores para clientes livres e distribuidoras, desde que respeitados os contratos vigentes. No médio prazo, as principais medidas para o setor são a privatização das distribuidoras estaduais, a venda da participação atual da Petrobras na Gaspetro (51%) e os leilões para contratação de térmicas a gás natural.

Os programas Abastece Brasil e RenovaBio têm potencial para solucionar alguns gargalos no setor de combustíveis. É preciso que essas iniciativas promovam um esforço conjunto entre os agentes para reduzir a sonegação de impostos e a adulteração dos combustíveis. Questões estruturais precisam ser resolvidas, com adoção de um imposto flexível ou de um fundo de estabilização de preços do diesel e ajustes regulatórios e tributários no segmento de refino para garantir o sucesso do programa de desinvestimentos da Petrobras nessa etapa da cadeia. O RenovaBio precisa ser implementado até janeiro de 2020, com definição de metas por distribuidora e início da transação de CBIOs.

O crescimento previsto para a produção de petróleo e gás natural e o alinhamento da gestão da Petrobras à ideia de um setor mais competitivo abriram uma janela de oportunidade para aprimorar o marco jurídico e regulatório brasileiro. O caminho não é fácil e essas são apenas algumas das ações necessárias para aproveitar o momento de transição do setor de óleo e gás no país e atrair investimentos. Não podemos desperdiçar essa chance, seja por inércia ou por ações desgovernadas, sem embasamento técnico e buscando apenas interesses de determinados agentes.

Diretor do CBIE – Centro Brasileiro de Infraestrutura

(Fonte: Estadão)

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