Uma ordem geopolítica no petróleo
Controle dos EUA sobre a Venezuela impacta preço dos barris no mundo e exige disciplina de capital para empresas
O ano de 2026 começou com um dos maiores eventos que o mercado de petróleo viveu em todos os tempos. Com certeza, o único evento semelhante foi o 1º choque do petróleo em 1974. E o que esses 2 eventos têm em comum? O fato de que ambos mudaram a geopolítica do mercado de petróleo.
O 1º choque trouxe o esvaziamento do poder das majors e dos Estados Unidos e o empoderamento dos países que compunham o cartel da Opep, inclusive o da Venezuela. É sempre bom lembrar que a Venezuela é fundadora da Opep.
Apesar de a Opep ter sido criada no início dos anos 1960, o seu poder de fato como cartel determinando o preço do petróleo só se dá depois do 1º choque. Agora, esse evento na Venezuela vai dar de volta aos Estados Unidos, e mesmo às empresas norte-americanas de petróleo, que tiveram seus campos estatizados pelo governo Chávez, o poder de controlar um número expressivo das reservas mundiais de petróleo e, consequentemente, retornar a ser um player determinante no controle da produção de petróleo e nos preços do barril.
A Venezuela detém o maior volume de reservas de petróleo e de gás natural no mundo, e o fato de esse petróleo ser pesado é um problema que tem solução. As refinarias norte-americanas estão preparadas para refinar esse petróleo, que misturado com nafta aumenta o grau API do petróleo venezuelano. Abrindo aspas, teremos um grande crescimento da venda de nafta. Enfim, diesel ou gasolina produzidos por petróleo leve ou pesado tem o mesmo preço de mercado.
A Venezuela hoje vive um paradoxo. Apesar de ter as maiores reservas de petróleo do mundo, com 300 bilhões de barris, produz só 1 milhão de barris/dia. Ou seja, apenas 1% da produção mundial. A entrada dos Estados Unidos na Venezuela, assumindo a elaboração da política petrolífera do país por meio do retorno de investimentos tanto na infraestrutura como no aumento da produção de óleo e gás, trará a Venezuela de volta como protagonista no mercado de petróleo e aí estará criada uma ordem geopolítica nesse mercado, liderada pelos Estados Unidos.
Ao instalar essa nova ordem econômica, os Estados Unidos dão 2 xeques-mates simultâneos. O 1º é contra a China. A Venezuela tem uma dívida externa com a China de cerca de US$ 60 bilhões, e essa dívida deveria ser paga com exportações de petróleo para a China. Agora, tudo muda.
O presidente Trump já declarou que a Venezuela vai vender para os Estados Unidos 50 milhões de barris e, com a receita da venda de petróleo, comprar produtos norte-americanos. Com isso, os norte-americanos recuperam e neutralizam a influência dos chineses sobre a maior reserva de petróleo do mudo e mesmo sobre outros setores da economia venezuelana, como os tão comentados e desejados minerais raros.
O 2º xeque-mate é contra a Opep. O cartel desde o início da guerra entre a Rússia e a Ucrânia vinha retomando seu poder no mercado de petróleo, criando a chamada Opep+, com a presença ativa da Rússia. Com a Venezuela voltando a ter protagonismo no mercado de petróleo, produzindo de 3 a 4 milhões de barris/dia, alinhada e monitorada pelos Estados Unidos, muda radicalmente o equilíbrio de poder no mercado global do petróleo.
Claro que para que tudo isso aconteça existem grandes obstáculos políticos e econômicos a serem superados. Do ponto de vista político, temos de ver se realmente existirá um alinhamento entre o novo governo venezuelano e a gestão Trump, que traria a segurança jurídica e regulatória para a volta de investimentos privados.
Caso isso ocorra, os primeiros investimentos a chegarem na Venezuela serão para recuperação da infraestrutura. A estimativa é de algo como US$ 50 bilhões nos próximos 5 anos. A única certeza que temos hoje é que teremos um 2026 agitado no mercado de petróleo e com preços do barril abaixo dos US$ 60, o que exigirá grande disciplina de capital por parte das empresas de petróleo.

Espaço Adriano Pires
13 de Jan de 2026