A ilusão da planilha perfeita
A solução solar de Musk não resolve o setor elétrico, pois desconsidera transmissão, perdas, custos, segurança do sistema e a necessidade de uma matriz diversificada
“Para cada problema complexo existe uma solução simples, elegante e completamente errada”
Em sua recente participação no Fórum Econômico Mundial em Davos, Elon Musk apresentou uma afirmação aparentemente revolucionária: uma área de apenas 100 milhas por 100 milhas (cerca de 26.000 km²) coberta com painéis solares seria suficiente para abastecer toda a eletricidade dos Estados Unidos. Tecnicamente, os números conferem. Na prática, essa solução simplista ignora décadas de conhecimento acumulado sobre como os sistemas elétricos realmente funcionam.
Esses números são impressionantes. Uma área equivalente ao Estado de Sergipe poderia, teoricamente, gerar toda a eletricidade que os EUA consomem. No Brasil, o cálculo é ainda mais modesto. Com aproximadamente 2.000 km² de painéis solares, uma área equivalente a 1,3 vezes a cidade de São Paulo seria suficiente para abastecer todo o país.
A tese é simples. Basta pegar um canto do sertão nordestino, onde o sol brilha 300 dias por ano, instalar uma gigantesca usina solar e pronto. Problema energético resolvido. Essa é a solução de planilha. A realidade, porém, tem outros planos.
A 1ª pergunta que essa tese ignora é: como você transmite essa energia? Imagine concentrar toda a geração elétrica do Brasil no interior da Bahia e levar essa energia até Porto Alegre, Manaus, São Paulo e Belém. Milhares de quilômetros de linhas de alta e altíssima tensão, cruzando biomas diferentes, relevos acidentados, áreas urbanas e rurais. O custo seria astronômico, facilmente centenas de bilhões de reais apenas na infraestrutura inicial.
As perdas técnicas nesse processo seriam brutais. No Brasil, já perdemos 14% da energia na transmissão. Com uma concentração geográfica extrema da geração, essas perdas poderiam triplicar. Estamos falando de jogar fora de 25% a 30% de toda a energia gerada simplesmente porque ela precisa viajar milhares de quilômetros.
Outro problema fundamental é a eficiência espacial. Uma usina nuclear moderna gera de 500 a 1.500 watts por m². Uma termelétrica a gás produz de 800 a 2.000 W/m². Já a geração solar, mesmo nos melhores cenários, gera de 35 a 50 W/m². Uma única usina nuclear do tamanho de Angra 3 (1.405 MW) ocupa menos de 2 km². Para gerar o equivalente em solar, você precisaria cobrir uma área 30 vezes maior com painéis.
O Brasil tem uma das maiores reservas de urânio do mundo, rios caudalosos ideais para hidrelétricas, sol no Nordeste, ventos no litoral e gás natural em abundância no pré-sal. Nossa vantagem competitiva está em combinar inteligentemente fontes concentradas (nuclear, hidro, gás) nas regiões onde a demanda é alta, com fontes distribuídas (solar, eólica) onde fazem sentido economicamente e ambientalmente.
Sistemas elétricos são organismos complexos que equilibram oferta e demanda em tempo real, 24/7. Hidrelétricas oferecem resposta rápida a picos de demanda. Termelétricas garantem estabilidade de frequência. Usinas nucleares fornecem carga de base estável. Fontes eólicas aproveitam ventos noturnos quando o solar não funciona.
Apostar em uma única fonte é ignorar características técnicas, diferenças geográficas, sazonalidades climáticas e a necessidade de segurança energética. O que fazemos quando uma tempestade de areia cobre nosso megaparque solar? Mesmo com baterias gigantescas, é um risco sistêmico inaceitável.
Existe um mito perigoso de que priorizar fontes renováveis automaticamente resulta em energia mais barata. O Brasil é a prova viva de que isso não é verdade. Temos a matriz elétrica mais limpa do mundo entre as grandes economias. Deveríamos ter a energia mais barata do planeta. Mas temos uma das contas de luz mais caras do mundo.
Por quê? Porque olhar apenas o atributo ambiental ignora a complexidade econômica. Subsídios cruzados, custos de transmissão, backup térmico, encargos setoriais e tributação pesam na conta final. A modicidade tarifária exige equilíbrio entre sustentabilidade e eficiência econômica.
Elon Musk caiu na armadilha clássica do Vale do Silício: assumir que sistemas complexos podem ser simplificados com engenharia elegante e escala. Mas sistemas elétricos são fundamentalmente diferentes de software ou manufatura de carros. Eles envolvem física, geografia, clima, economia, regulação e comportamento humano. Um blecaute não é um bug corrigível na próxima atualização. É uma crise que afeta milhões de pessoas imediatamente e custa bilhões.
Não existe “fonte melhor” ou solução única. Existe um portfólio otimizado de tecnologias, adaptado às condições locais, balanceado entre confiabilidade, custo e impacto ambiental. A questão não é escolher uma fonte, mas orquestrar todas.
Elon Musk está certo em um ponto: a energia solar tem potencial transformador. Os números funcionam na planilha. Mas entre a planilha e a realidade existe um abismo chamado complexidade. O setor elétrico não precisa de soluções simples. Precisa de soluções inteligentes –abraçar a complexidade, respeitar especificidades locais e construir sistemas seguros, resilientes e diversos. A próxima vez que alguém apresentar uma solução mágica para o setor elétrico que cabe em um tweet, desconfie.

Espaço Adriano Pires
3 de Fev de 2026