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A solução solar de Musk não resolve o setor elétrico, pois desconsidera transmissão, perdas, custos, segurança do sistema e a necessidade de uma matriz diversificada

“Para cada problema complexo existe uma solução simples, elegante e completamente errada”

Em sua recente participação no Fórum Econômico Mundial em DavosElon Musk apresentou uma afirmação aparentemente revolucionária: uma área de apenas 100 milhas por 100 milhas (cerca de 26.000 km²) coberta com painéis solares seria suficiente para abastecer toda a eletricidade dos Estados Unidos. Tecnicamente, os números conferem. Na prática, essa solução simplista ignora décadas de conhecimento acumulado sobre como os sistemas elétricos realmente funcionam.

Assista (27min41s):

Esses números são impressionantes. Uma área equivalente ao Estado de Sergipe poderia, teoricamente, gerar toda a eletricidade que os EUA consomem. No Brasil, o cálculo é ainda mais modesto. Com aproximadamente 2.000 km² de painéis solares, uma área equivalente a 1,3 vezes a cidade de São Paulo seria suficiente para abastecer todo o país.

A tese é simples. Basta pegar um canto do sertão nordestino, onde o sol brilha 300 dias por ano, instalar uma gigantesca usina solar e pronto. Problema energético resolvido. Essa é a solução de planilha. A realidade, porém, tem outros planos.

A 1ª pergunta que essa tese ignora é: como você transmite essa energia? Imagine concentrar toda a geração elétrica do Brasil no interior da Bahia e levar essa energia até Porto Alegre, Manaus, São Paulo e Belém. Milhares de quilômetros de linhas de alta e altíssima tensão, cruzando biomas diferentes, relevos acidentados, áreas urbanas e rurais. O custo seria astronômico, facilmente centenas de bilhões de reais apenas na infraestrutura inicial.

As perdas técnicas nesse processo seriam brutais. No Brasil, já perdemos 14% da energia na transmissão. Com uma concentração geográfica extrema da geração, essas perdas poderiam triplicar. Estamos falando de jogar fora de 25% a 30% de toda a energia gerada simplesmente porque ela precisa viajar milhares de quilômetros.

Outro problema fundamental é a eficiência espacial. Uma usina nuclear moderna gera de 500 a 1.500 watts por m². Uma termelétrica a gás produz de 800 a 2.000 W/m². Já a geração solar, mesmo nos melhores cenários, gera de 35 a 50 W/m². Uma única usina nuclear do tamanho de Angra 3 (1.405 MW) ocupa menos de 2 km². Para gerar o equivalente em solar, você precisaria cobrir uma área 30 vezes maior com painéis.

O Brasil tem uma das maiores reservas de urânio do mundo, rios caudalosos ideais para hidrelétricas, sol no Nordeste, ventos no litoral e gás natural em abundância no pré-sal. Nossa vantagem competitiva está em combinar inteligentemente fontes concentradas (nuclear, hidro, gás) nas regiões onde a demanda é alta, com fontes distribuídas (solar, eólica) onde fazem sentido economicamente e ambientalmente.

Sistemas elétricos são organismos complexos que equilibram oferta e demanda em tempo real, 24/7. Hidrelétricas oferecem resposta rápida a picos de demanda. Termelétricas garantem estabilidade de frequência. Usinas nucleares fornecem carga de base estável. Fontes eólicas aproveitam ventos noturnos quando o solar não funciona. 

Apostar em uma única fonte é ignorar características técnicas, diferenças geográficas, sazonalidades climáticas e a necessidade de segurança energética. O que fazemos quando uma tempestade de areia cobre nosso megaparque solar? Mesmo com baterias gigantescas, é um risco sistêmico inaceitável.

Existe um mito perigoso de que priorizar fontes renováveis automaticamente resulta em energia mais barata. O Brasil é a prova viva de que isso não é verdade. Temos a matriz elétrica mais limpa do mundo entre as grandes economias. Deveríamos ter a energia mais barata do planeta. Mas temos uma das contas de luz mais caras do mundo.

Por quê? Porque olhar apenas o atributo ambiental ignora a complexidade econômica. Subsídios cruzados, custos de transmissão, backup térmico, encargos setoriais e tributação pesam na conta final. A modicidade tarifária exige equilíbrio entre sustentabilidade e eficiência econômica.

Elon Musk caiu na armadilha clássica do Vale do Silício: assumir que sistemas complexos podem ser simplificados com engenharia elegante e escala. Mas sistemas elétricos são fundamentalmente diferentes de software ou manufatura de carros. Eles envolvem física, geografia, clima, economia, regulação e comportamento humano. Um blecaute não é um bug corrigível na próxima atualização. É uma crise que afeta milhões de pessoas imediatamente e custa bilhões.

Não existe “fonte melhor” ou solução única. Existe um portfólio otimizado de tecnologias, adaptado às condições locais, balanceado entre confiabilidade, custo e impacto ambiental. A questão não é escolher uma fonte, mas orquestrar todas.

Elon Musk está certo em um ponto: a energia solar tem potencial transformador. Os números funcionam na planilha. Mas entre a planilha e a realidade existe um abismo chamado complexidade. O setor elétrico não precisa de soluções simples. Precisa de soluções inteligentes –abraçar a complexidade, respeitar especificidades locais e construir sistemas seguros, resilientes e diversos. A próxima vez que alguém apresentar uma solução mágica para o setor elétrico que cabe em um tweet, desconfie.

Publicado originalmente pelo Poder360.