Baterias avançam, mas a segurança energética depende das térmicas
O futuro da matriz elétrica brasileira será baseado na complementaridade e não na substituição unilateral
O debate sobre o papel dos BESS (sistemas de armazenamento em baterias, em tradução da sigla em inglês) no setor elétrico brasileiro tem ganhado intensidade, sobretudo após análises recentes apontarem que, sob determinadas condições de mercado, sua contratação em leilões de reserva de capacidade poderia gerar economia relevante frente às usinas termelétricas.
Estudos divulgados no mercado sugerem que, em certos cenários, o preço-teto das baterias pode variar entre R$ 1,2 milhão e R$ 1,7 milhão por MW.ano. Enquanto os tetos das térmicas podem atingir até R$ 2,9 milhões por MW.ano, de acordo com o preço teto estabelecido para o leilão. De capacidade do próximo mês de março.
Esses resultados são relevantes e merecem atenção, mas é preciso uma dose maior de cautela antes de se concluir que BESS desempenharia o mesmo papel estrutural das térmicas ou que seria capaz de substituí-las. A interpretação simplificada dos dados pode criar uma sensação de segurança que não encontra respaldo técnico nas características reais da matriz elétrica brasileira. O país opera sob forte variabilidade hidrológica, profunda dependência de fontes renováveis intermitentes e desafios estruturais que vão muito além do simples atendimento do horário de ponta.
Embora BESS sejam frequentemente citados como tecnologias em evolução acelerada, ainda há considerável incerteza em relação ao seu desempenho em múltiplos ambientes operativos, sua maturidade comercial plena e sua integração sistêmica em grande escala.
Alguns analistas apontam que a flexibilidade de carregamento e descarga pode vir a contribuir para reduzir o curtailment e melhorar o aproveitamento de fontes renováveis como solar e eólica. Porém, isso ocorre, em teoria, pelo armazenamento do excedente solar e eólico durante o dia, com posterior liberação no período noturno. Ainda assim, esse benefício é altamente sensível às condições regionais de geração, ao perfil de demanda, às estratégias de operação das distribuidoras e ao estágio tecnológico das próprias baterias, fatores que tornam seus resultados menos generalizáveis do que muitas vezes se sugere.
Ou seja: as baterias têm valor crescente e oferecem soluções relevantes, mas ainda há incertezas significativas quanto à sua escalabilidade, consistência de desempenho e sua adequação para funções além das quais foram originalmente concebidas.
E fundamental entendermos que o grande desafio do setor elétrico brasileiro não se limita aos eventos diários de consumo de energia na ponta. O país convive historicamente com ciclos prolongados de escassez hídrica que podem perdurar por semanas ou meses. Em tais circunstâncias, o problema não é apenas deslocar energia ao longo do dia —é a própria falta de energia firme.
Em cenários de hidrologia crítica:
- os reservatórios ficam abaixo dos níveis de suporte;
- renováveis intermitentes não conseguem garantir suprimento contínuo;
- e as baterias, por sua natureza, não têm energia primária para armazenar.
É preciso entender que as baterias não geram energia, apenas a deslocam no tempo.
Quando há pouco a armazenar, sua contribuição passa a ser limitada, independentemente de sua capacidade tecnológica.
Argumentos que colocam baterias como substitutas das térmicas frequentemente se baseiam na comparação direta de valores de potência. De fato, em muitos casos, BESS apresentam custos inferiores em R$/MW.ano. Contudo, essa métrica retrata apenas o preço de disponibilidade de potência, não o valor sistêmico da geração contínua.
Um sistema elétrico não pode ser projetado apenas para o dia típico. Ele deve funcionar sobretudo nas situações extremas: secas severas, picos de consumo inesperados, déficits prolongados de renováveis. E é precisamente nesses momentos que o valor das térmicas se revela: elas evitam racionamentos, mitigam riscos sistêmicos e reduzem custos que seriam muito superiores ao preço anual de potência.
Reduzir o papel das térmicas com base exclusiva em comparações monetárias pontuais pode gerar uma falsa sensação de segurança e expor o país a vulnerabilidades.
O futuro da matriz elétrica brasileira será baseado na complementaridade, e não na substituição unilateral:
- Fontes renováveis: energia limpa e crescente, porém intermitente;
- Baterias: flexibilidade operacional, redução de curtailment e resposta rápida —dentro de certas condições;
- Térmicas: suprimento contínuo, lastro e segurança energética em períodos críticos.
Nenhuma entrega o que a outra entrega.
E nenhuma substitui plenamente o papel sistêmico das demais.

Espaço Adriano Pires
24 de Fev de 2026