O preço do petróleo e a miopia estratégica do Brasil
País cria impostos que afastam investimentos e subsidia a gasolina e o diesel, penalizando alternativas que deveriam ser desenvolvidas
O barril de petróleo tipo Brent, que era negociado a US$ 73 no final de fevereiro, disparou para US$ 91 com a eclosão do conflito no Oriente Médio, com picos temporários acima dos US$ 100. Em alguns momentos de pânico máximo, o Brent chegou a quase US$ 120, antes de recuar quando o mercado reavaliou a probabilidade de um choque de oferta prolongado.
A causa é conhecida: o estreito de Ormuz transporta em média 20 milhões de barris por dia, representando cerca de 25% do comércio marítimo global de petróleo, e qualquer ameaça a esse corredor é suficiente para ativar toda essa volatilidade dos mercados.
A resposta dos governos ao redor do mundo foi imediata. Países do G7 articularam a liberação de reservas estratégicas, tentando injetar oferta artificial no mercado para conter a espiral de preços. O Brasil escolheu o caminho de sempre, zerou o PIS/Cofins sobre o diesel e criou um programa de subvenção ao importador e produtor de diesel. Políticas que serão financiadas pela criação do imposto de exportação de petróleo de 12%.
A lógica é sedutora na superfície —barateia o combustível, contém a inflação, acalma o caminhoneiro e toma dinheiro das empresas petrolíferas que, segundo o ex-ministro Fernando Haddad, têm lucros exorbitantes.
No Brasil, o preço dos combustíveis é livre. Uma desoneração tributária não se converte automaticamente em redução na bomba. A cadeia entre refinaria, distribuidor, revendedor e consumidor final envolve margens, contratos, fretes e expectativas que tornam o repasse integral uma ilusão.
Além do mais, financiar políticas públicas criando impostos, como esse de exportação de óleo, que são meramente arrecadatórios e afastam investimentos, só criam insegurança jurídica e regulatória num país que precisa desenvolver novas áreas de exploração de petróleo, como a Margem Equatorial.
Há um custo ainda maior, silencioso. Ao subsidiar o diesel fóssil, o governo cria uma distorção que penaliza exatamente as alternativas que o Brasil deveria estar desenvolvendo.
Caminhões movidos a GNL, gás natural veicular ou biometano já são competitivos do ponto de vista técnico e econômico frente ao diesel. O biometano, produzido a partir de resíduos agroindustriais, representa um ativo estratégico para um país como o Brasil, mas não consegue competir quando o concorrente fóssil recebe um subsídio político.
O resultado é uma profecia autorrealizável: o Brasil permanece dependente do diesel importado e não aproveita momentos de ciclo alto dos preços do petróleo para desenvolver políticas que olhem as nossas vantagens comparativas como produtores de combustíveis mais limpos.
O contraste com a China é eloquente. Desde 2018, o governo chinês, aproveitando a sua vantagem comparativa como gerador de energia elétrica com a nuclear, a eólica, a solar e mesmo o carvão, já gastou US$ 100 bilhões para impulsionar a eletrificação de veículos. O resultado aparece nos dados.
No 1º semestre de 2025, os caminhões elétricos já representavam 22% das vendas de pesados novos –contra 9,2% no mesmo período de 2024– e os caminhões elétricos chineses já reduzem a demanda de petróleo no equivalente a mais de 1 milhão de barris por dia. A eletrificação chinesa passa a funcionar como um hedge geopolítico contra gargalos nas rotas globais de petróleo.
O Brasil não precisa e nem deve copiar o modelo chinês. Tem algo melhor: uma das maiores diversidades energéticas do mundo. Temos etanol, biodiesel, biometano, gás natural, pré-sal e uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo. Portanto, o que falta não é recurso energético, mas visão e planejamento estratégico de longo prazo.
Cada real gasto em subsídio ao diesel é um real que não foi investido em infraestrutura de GNL para caminhões, em incentivo ao biometano ou em pesquisa de eficiência energética.
Enquanto a China constrói independência energética estrutural, o Brasil cria impostos que afastam investimentos e subsidia a gasolina e o diesel e chama isso de política energética. A diferença entre os 2 países não é de recursos –é de ambição.

Espaço Adriano Pires
24 de Mar de 2026