Post

Governo discute se muda parâmetros que podem impactar preço da energia; especialista é a favor de manter conservadorismo no uso da água

A manutenção conservadora dos reservatórios das hidrelétricas não é importante apenas para a geração de energia elétrica, mas também para assegurar múltiplos usos da água, afirma Adriano Pires, sócio-fundador e diretor do CBIE (Centro Brasileiro de Infraestrutura) e articulista do Poder360.

“Em particular, a irrigação pode alcançar entre 60% a 80% do uso dos reservatórios, a depender do ano, contra somente 12% no caso da geração hidrelétrica”, afirma Pires. 

O CMSE (Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico), vinculado ao MME (Ministério de Minas e Energia), discute se altera o patamar de aversão ao risco utilizado na operação do sistema elétrico brasileiro. A alteração seria analisada na última 4ª feira (13.mai), mas foi adiada pelo colegiado, que pediu avaliações adicionais ao ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) e à CCEE (Câmara de Comercialização de Energia Elétrica).

O que está em discussão é a CVaR (Conditional Value at Risk), variável que mede a chance de escassez de energia em cenários hidrológicos adversos. Na prática, o parâmetro define o grau de conservadorismo adotado na operação do sistema elétrico. Influencia no quanto de água deve ser preservado nos reservatórios das hidrelétricas e quanto da capacidade de usinas termelétricas deve ser acionado preventivamente. 

Quanto maior a aversão ao risco, mais conservador é o uso dos reservatórios das hidrelétricas e maior é o despacho das térmicas, o que encarece a operação do sistema elétrico e, consequentemente, as tarifas de energia ao consumidor. 

Atualmente, o MME utiliza a premissa 15/40, que dá aos 15% piores cenários hidrológicos o peso de 40% nos cálculos usados para definir o despacho das térmicas e o PLD (Preço de Liquidação das Diferenças) –referência de preço do mercado de curto prazo de energia elétrica no Brasil. 

Pires avalia que a manutenção desse patamar garante a segurança energética, mas eleva os preços de curto prazo para uma faixa de R$ 300 a R$ 350 MWh (megawatt- hora). A alta prejudica especialmente as comercializadoras de energia e os setores eólico e solar, que precisam comprar energia no mercado de curto prazo por causa do curtailment

“Como não há um MRE [Mecanismo de Realocação de Energia] com preços módicos para fontes intermitentes [que não geram energia de forma contínua], quanto maior o preço de curto prazo, mais negativo é o impacto do curtailment pela exposição criada por ele para compras no mercado spot [curto prazo]. Se o CMSE mudar o fator de risco para 15/35 ou 15/30, os preços spot cairiam para faixas de R$ 180 a R$ 250, o que prejudicaria menos a turma do curtailment e as comercializadoras”

Curtailment

É o desligamento obrigatório de usinas renováveis pelo ONS (Operador Nacional do Sistema), mesmo quando há vento ou sol. Isso acontece porque o sistema elétrico precisa equilibrar geração e consumo em tempo real. 

Quando uma usina realiza curtailment, ela deixa de gerar energia que muitas vezes já vendeu em contrato. Para honrar esses compromissos, é necessário “comprar” essa diferença no mercado de curto prazo. Quanto maior o preço, mais caro e negativo é o impacto para os empresários e comercializadoras. 

Publicado originalmente pelo Poder360.