A corrida silenciosa que o Brasil está perdendo
“Você pode ignorar a realidade, mas não pode ignorar as consequências de ignorar a realidade”.
Em janeiro de 2025, Jensen Huang, CEO da Nvidia, ofereceu em Davos uma perspectiva reveladora sobre inteligência artificial. “A IA é muito maior do que os modelos”, afirmou, descrevendo uma pirâmide de cinco camadas: energia, chips, nuvem, modelos e aplicação. A mensagem é clara: antes de ChatGPT ou Claude existirem, é preciso muita energia. Essa é a base de toda a construção.
Segundo o relatório da S&P Global, a demanda global por eletricidade crescerá quase 50% até 2040. Nos Estados Unidos, após 25 anos de estagnação, o consumo elétrico dispara a 2,5% ao ano. A participação dos data centers na demanda elétrica americana saltará de 5% hoje para 14% em 2030. Para atender essa explosão, o mundo precisará construir anualmente o equivalente a 7 usinas de Itaipu – a segunda maior hidrelétrica do planeta, com 14 gigawatts de capacidade. Esse tsunami energético transformou completamente o conceito de transição energética. O termo correto agora é “adição energética”. Não se trata mais de substituir fontes, mas de somar capacidade. E é aqui que entram os metais e terras raras, os verdadeiros protagonistas silenciosos desta história
Terras raras e metais críticos como cobre, lítio e cobalto são elementos químicos essenciais para tecnologias modernas. Possuem propriedades únicas – condutividade elétrica excepcional, magnetismo intenso, resistência a altas temperaturas – que os tornam insubstituíveis em turbinas eólicas, painéis solares, baterias de veículos elétricos e, crucialmente, na infraestrutura que alimenta a IA.
O cobre, recém-designado mineral crítico pelos EUA, ilustra perfeitamente o dilema. A demanda global explodirá de 28 milhões de toneladas em 2025 para 42 milhões em 2040 – crescimento de 50%. Um veículo elétrico usa 2,9 vezes mais cobre que um convencional. Sistemas de energia renovável são vorazes consumidores do metal. Os investimentos necessários em redes de transmissão e distribuição até 2040 chegam a US$ 7,5 trilhões, todos dependentes de cobre. O problema? Sem expansão significativa da oferta, haverá um déficit de 10 milhões de toneladas até 2040. O tempo médio entre descoberta de uma mina e sua operação é de 17 anos. A China controla 12 das 29 milhões de toneladas de capacidade global de fundição. A concentração geográfica da produção e processamento cria vulnerabilidades estratégicas perigosas.
Por isso, metais e terras raras deixaram de ser questão de commodities para se tornarem instrumento de poder geopolítico. Quando Huang diz que energia é a base da pirâmide da IA, está dizendo que minerais críticos são a fundação dessa base. Quem controla esses recursos controla a infraestrutura física do futuro digital.
E aqui reside a grande frustração brasileira. O país é o terceiro maior detentor de reservas de terras raras do mundo. Possui diversidade energética invejável, território continental, mercado consumidor robusto e recursos minerais abundantes. Temos todas as cartas na mão para vencer este jogo. Mas permanecemos paralisados. Presos a agendas ideológicas anacrônicas, regulações que travam em vez de viabilizar, um assistencialismo que alivia sintomas, mas impede a cura. Enquanto o mundo acelera com foguetes supersônicos rumo à economia da IA, seguimos com carros de boi, discutindo pautas do século passado.
A indústria de tecnologia global investiu mais de US$ 400 bilhões em 2025, majoritariamente em chips e data centers. Nações inteiras reformulam estratégias energéticas e industriais para se posicionarem nesta corrida. E o Brasil? Debate se deve ou não explorar suas próprias riquezas minerais, criação de uma TerrasRarasBras, necessidades intermináveis de licenças, dentre outros obstáculos impostos por aqueles que deveriam retirar as pedras do caminho.
O fato da vida é que a IA não é apenas mais uma tecnologia – é a infraestrutura do século XXI, como eletricidade foi para o século XX. E essa infraestrutura precisa de bases físicas: energia, minerais, processamento. Países que construírem essas bases dominarão a economia global das próximas décadas. Os que não construírem serão irrelevantes. O Brasil pode escolher ser protagonista ou espectador. Mas precisa escolher logo. Esta corrida não espera.

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29 de Jan de 2026