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A entrada desses novos volumes tende a aliviar a pressão sobre as cotações do combustível e ampliar as alternativas de abastecimento para países importadores

O Brasil pode se beneficiar do acordo anunciado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com o presidente da Rússia, Vladimir Putin, para ampliar a oferta de diesel russo no mercado internacional. A entrada desses novos volumes tende a aliviar a pressão sobre as cotações do combustível e ampliar as alternativas de abastecimento para países importadores, como o Brasil, avaliam especialistas.

Segundo Trump, a Rússia concordou em fornecer 300 mil toneladas imediatamente, outras 500 mil toneladas em novembro e mais 1 milhão de toneladas posteriormente. De acordo com Sergio Araujo, presidente da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), entre 25% e 30% da demanda nacional de diesel precisa ser complementada por importações.

— Quando se aumenta a oferta e se mantém a demanda, a tendência é de redução do preço. É a lei do mercado. Os Estados Unidos não são importadores de diesel, são exportadores. O diesel russo vai para a Turquia, o Brasil e outros países que importam o combustível. O que vai acontecer é que os Estados Unidos precisarão exportar menos. Nesse caso, terão uma oferta interna maior e, consequentemente, a possibilidade de reduzir os preços no mercado doméstico, aliviando a pressão sobre o setor agrícola americano — explica Araujo.

Além disso, nesta sexta-feira, a equipe econômica de Lula anuncio

O presidente da Abicom, no entanto, pondera que é preciso cautela ao avaliar os efeitos do anúncio. Embora a perspectiva seja positiva, a concretização dos embarques será determinante para medir o impacto sobre o mercado.

— A gente precisa ter muita cautela, porque entre uma declaração e um fato existe uma distância que às vezes pode ser grande. Precisamos aguardar para ver se, de fato, essas ofertas de produto da Rússia vão acontecer — diz Araujo.

O eventual aumento da oferta internacional ocorre em um momento de preocupação dos importadores brasileiros com a dependência do diesel americano. Em setembro, cerca de 80% do combustível importado pelo Brasil veio dos Estados Unidos, segundo a Abicom.

Para outubro, a participação americana deve permanecer acima de 70%, de acordo com estimativas do setor. Antes das restrições às exportações russas, a Rússia era uma das principais fornecedoras de diesel do Brasil, para onde vendia diesel mais barato por conta das sanções impostas por conta da guerra da Ucrânia.

Para especialistas, a retomada das importações russas pode reduzir o risco de desabastecimento em um período de maior demanda no Brasil, impulsionada pela safra agrícola. Segundo Araujo, o abastecimento para outubro é considerado confortável, com a produção das refinarias brasileiras e a oferta disponível suficientes para atender ao consumo, mesmo com a demanda sazonalmente mais elevada.

A Petrobras responde pela maior parte da produção e importação. Já o cenário para novembro ainda está em aberto, uma vez que as compras para o período começam a ganhar volume nos próximos dias.

Para Jean Paul Prates, ex-presidente da Petrobras, a eventual entrada de até 4,8 milhões de toneladas adicionais no mercado mundial pode aliviar a disputa por cargas, contribuir para reduzir as cotações internacionais e ampliar a disponibilidade de combustível de outras origens.

— Se o preço internacional cair, o governo brasileiro precisa rever imediatamente o subsídio extraordinário que acaba de conceder aos importadores. Subsídio emergencial tem que acompanhar a emergência: não pode sobreviver a ela.

Prates observa ainda que, depois de anos pressionando países que compravam energia russa, os próprios Estados Unidos agora flexibilizam as restrições para ampliar a oferta de diesel da Rússia.

— Isso porque os EUA precisam baixar seus preços domésticos. Isso apenas confirma que segurança energética se faz com diversificação e autonomia, exatamente o que o Brasil deve fazer.

Segundo Pedro Rodrigues, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), o aumento da oferta global pode beneficiar o Brasil ao reduzir o risco de falta de combustível e aliviar as cotações. O país, porém, talvez não recupere a vantagem que tinha com o diesel russo vendido com desconto em relação aos preços internacionais.

— Isso faz diferença no Brasil, pois, com mais diesel no mercado, há menos risco de falta do produto e a possibilidade de redução dos preços. Então, há um efeito sobre as cotações do mercado como um todo. Mas, agora, é difícil conseguir importar o produto da Rússia com o desconto que existia antigamente.

Publicado originalmente pelo O Globo.