Energia em Tempos de Pandemia: impactos da COVID-19 nos setores energéticos ibero-americanos

Por Adriano Pires

O diretor do CBIE, professor Adriano Pires, foi convidado para ser um dos Speakers do Energy Virtual Experience – EVEx 2020. Trata-se do maior evento 100% online e ao vivo em prol da Transição Energética Ibero-Americana pós-pandemia, a ser realizado nos dia 23 a 27 de Novembro.

A multiplataforma do EVEx 2020 colocará no centro das discussões os chamados “3Ds” do fenômeno da transição para a economia de baixo carbono e para as energias limpas – descarbonizaçãodescentralização e digitalização –, visando a promoção de análises plurais sobre a dimensão dos efeitos da COVID-19 em cada um deles e a construção de soluções conjuntas, direcionadas à superação da desaceleração energética e da crise econômica global, especialmente, em Portugal, na Espanha, no Brasil e em outros países latino-americanos, como Argentina, Chile, Colômbia, Equador, México, Panamá, Peru e Uruguai.

O EVEx 2020 tem um formato único e inovador, baseado em 4 experiências interativas e colaborativas – TalksMasterClassesAcademy e Expo/Business -, que transportarão todos os participantes aos inúmeros desafios do “novo normal” do setor de energia.

O professor Adriano terá intervenção na experiência Energy Virtual Talks. O EVEx Talks proporcionará um intenso diálogo ibero-americano, para o compartilhamento de informações e conhecimentos em prol de uma transição energética bem-sucedida. Serão estabelecidas redes, sinergias e colaborações público-privadas entre CEOs, executivos de grandes empresas, membros de governos, reguladores, investidores, representantes de instituições e associações, engenheiros, advogados, pesquisadores, entre outros profissionais com atuação direta nos mais variados segmentos energéticos – fontes renováveis, petróleo e gás, biocombustíveis, eletricidade, eficiência energética, etc.

Nas sessões do EVEx Talks também ocorrerá o lançamento oficial da obra “Energia em Tempos de Pandemia: impactos da COVID-19 nos setores energéticos ibero-americanos”, que reúne artigos de opinião elaborados por renomados agentes setoriais da Península Ibérica e da América Latina.

O convite foi feito pelo coordenador do projeto, Caio César Cavalcanti.

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O artigo do professor Adriano Pires, que faz parte da integralidade da obra “Energia em Tempos de Pandemia: impactos da COVID-19 nos setores energéticos ibero-americanos” você confere logo abaixo.

UMA REFLEXÃO SOBRE O FUTURO DA ENERGIA

O mundo ficou de cabeça para baixo.

Tempos de tormenta e disrupção. Tudo isso, por conta da pandemia de coronavírus (COVID-19). Todos os países estão sendo obrigados a rever seus modelos de negocio. Ninguém vai passar por essa crise com a mesma percepção de mundo.

Na busca pela não disseminação do vírus, a recomendação é o isolamento social e, por consequência, a demanda por serviços e produtos vem apresentando redução drástica e paralisando a economia. Foi de olho na possibilidade de redução da demanda, inicialmente chinesa, que a Arábia Saudita propôs a então aliada Rússia a ampliação dos cortes de produção. A recusa russa deu início à guerra de preços do barril de petróleo que, somada aos efeitos do COVID-19, promoveu a maior crise da historia do petróleo. Essa mistura explosiva de crise econômica misturada com a pandemia e a total desorganização do setor de petróleo faz com que o momento seja propício à uma reflexão sobre o futuro da energia.

Há mais de uma década, as advertências do relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) para o clima levaram os países a direcionar os olhares e desenvolver as fontes renováveis como uma opção à redução de emissão dos gases de efeito estufa (GEE). No entanto, a velocidade imposta às mudanças não foi a esperada. A transição do setor de energia está em curso, mas não de forma a possibilitar o mundo a atingir as metas traçadas quanto ao clima e aquecimento. É notável que a solução para as mudanças climáticas é incontornável, mas o caminho é longo.

As energias renováveis cresceram as suas participações nas matrizes energéticas da maioria dos países, mas não o suficiente para conter a mudança climática. Trilhões de dólares em investimentos públicos e privados ainda serão necessários nos próximos anos para cumprir as metas atuais de reduzir as emissões de carbono. Na 21ª Conferência das Partes (COP21), realizada em Paris, lançou-se o objetivo de manter o aquecimento global abaixo de 2 ºC até 2100, buscando esforços para limitar o aumento da temperatura a 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais. No entanto, já existe a expectativa de que o aumento da temperatura se aproxime de 3 ºC nos próximos 80 anos, mesmo que os compromissos assumidos no acordo de Paris sejam cumpridos.

Em novembro de 2019, os Estados Unidos (EUA) notificaram à ONU a confirmação de saída do Acordo de Paris, cuja intenção já tinha sido anunciada em 2017. Há o receio de que a retirada norte-americana do pacto possa afetar as metas e mudar a forma sobre como outros governos, principalmente os de países em desenvolvimento, passarão a tratar o compromisso. Contudo, o governo dos EUA afirmou que o país continuará a reduzir as emissões sem comprometer o crescimento econômico.

Apesar dos EUA ocupar a segunda posição entre os maiores emissores do mundo, perdendo apenas para a China, é possível notar a redução no crescimento das emissões pelo país (Gráfico 1). Esse resultado está associado, em grande parte, à crescente produção e, consequente, aumento o uso do gás natural. Os EUA já tiveram um decréscimo significativo das emissões de gases poluentes. Estima-se, que entre 2005 e 2017, o total líquido de emissões de GEE dos EUA sofreu uma queda de 13%. E, tudo indica que essas emissões permanecerão em queda caso o shale gas continue atuando como substituto do carvão no país e agora penetrando no setor de transporte em substituição ao diesel. O gás natural é a solução energética mais limpa entre os combustíveis fósseis, capaz de reduzir a emissão de gases poluentes e garantindo o fornecimento energético. Sendo, por isso, adotado como o combustível da transição energética para um futuro com baixo carbono.

A inovação tecnológica do fracking e a descoberta de grandes jazidas de xisto (shale), junto ao maciço aporte do mercado de capitais, levou os EUA à primeira posição no ranking de produtores mundiais de gás natural e, também, de petróleo, como mostram os Gráficos 1 e 2 abaixo. Tal fato colocou os EUA em rota de colisão com os membros da Organização de Países Exportadores de Petróleo (Opep) e seus aliados, dentre os quais a Rússia. Diante da nova configuração, os grandes produtores da Opep já não têm o mesmo controle sobre os preços como tinham na década de 1970, embora a importância do Oriente Médio ainda seja significativa na dinâmica global.

Por conta disso, a exploração do shale dos EUA já sobreviveu a dramáticas guerras de preços. Entre 2015 e 2016, quando a Arábia Saudita, alarmada com o vultuoso aumento da produção nos EUA,  aumentou a sua produção objetivando reduzir os preços e quebrar as empresas texanas. O ataque saudita eliminou os produtores mais fracos e deixou o negócio de shale com melhor custo-benefício. Em 2017, quando o reino saudita e a Rússia se uniram para inverter o processo e começaram a cortar a oferta, desta vez para sustentar os preços, o setor de shale voltou à vida.

No entanto, a crise atual é diferente. A produção de shale oil e gas norte-americana está ameaçada. Os produtores de shale do país, que foram jogados na linha de frente da guerra de preços declarada entre Rússia e Arábia Saudita, agora enfrentam a grande volatilidade de preços da commodity decorrente do excesso de oferta, da drástica redução da demanda e, consequente, limite da capacidade de armazenagem.

O choque de preços recente começou a expor o setor de shale quando o preço do barril de petróleo passou a ser negociado a menos de US$ 30. No entanto, a situação piorou. Em 20 de abril, o contrato futuro do petróleo bruto West Texas Intermediate (WTI), negociado nos EUA, para maio fechou com valor negativo, de -US$ 37,63 o barril, e permaneceu abaixo de zero nos dois dias seguintes. Essa foi a primeira vez na historia do petróleo que os preços se comportaram de tal forma. Os eventos extremos do mercado foram motivados pela incapacidade dos detentores de contrato de encontrar outros participantes do mercado para vender os contratos futuros. Além disso, houve a escassez de armazenamento disponível de petróleo bruto, que impossibilitou vários participantes do mercado de receber entrega física no vencimento e, estes recorreram à venda de seus contratos futuros a preços negativos, pagando uma contraparte para se apossar dos contratos.

Com base no cenário, investidores e analistas de mercado estimam que o barril de petróleo a US$ 50 ou menos ocasionaria cortes nas despesas de capital e a uma queda na produção de petróleo pelos EUA. Além disso, o modelo de negócios para produtores de shale é intensivo em capital. Os credores do setor, que já estavam descontentes com esse modelo e as perspectivas de longo prazo para os combustíveis fósseis, dizem que não retomarão os investimentos, ainda que os preços do petróleo se recuperem. Assim, muitas empresas norte-americanas de shale atingirão em breve um limite de dívida e os riscos de falência aumentam acentuadamente. O governo devera intervir no mercado.

O mercado está rodeado de incertezas e, está cada vez mais difícil prever o que vai acontecer na geopolítica do petróleo. Qual será o novo patamar do preço do barril? Quando será atingido o pico da demanda de óleo? A certeza que se tem é de que o petróleo ainda tem um caminho a percorrer como o energético de maior importância no mundo. Foram essas perspectivas que levaram algumas petroleiras a iniciar um movimento para se tornarem empresas de energia, diversificando seus portfólios. Fato que sustentou os preços das ações de algumas delas, em situação de normalidade do mercado.

Estamos passando por um período de crise e situações inéditas estão circundando o setor energético mundial. É esse momento que nos leva a questionar o futuro da energia. Das crises resultam as melhores soluções e as grandes invenções, a chamada destruição criativa. Termo cunhado por Joseph Shumpeter no seu livro Capitalismo, Socialismo e Democracia, publicado em 1942. A Revolução Industrial, com a produção em larga escala, teve o carvão mineral como ator principal no funcionamento dos motores movidos a vapor. A popularização dos automóveis, no início do século XX, criou uma forte demanda por combustíveis de alto desempenho, levando o petróleo, até então utilizados para a obtenção do querosene, a se tornarem uma importante fonte para a obtenção de gasolina. Décadas depois, esta mesma tendência fez com que o diesel transformasse em um combustível de grande uso.

Com a finalidade de redução da dependência dos combustíveis fósseis, em virtude das crises no petróleo na década de 1970, foi necessária a busca por novas fontes de energia. Assim surgiram os biocombustíveis. E, nas últimas décadas, a preocupação com os impactos ambientais causados pela emissão de gases poluentes, ampliou a busca por fontes limpas de energia. As fontes renováveis são aquelas que não se esgotam com sua utilização, mas ainda existe uma limitação temporal na sua produção, sem falar nas questões de intermitência e preço ainda elevado. Agora, as imposições de isolamento serão mantidas enquanto não houver uma solução definitiva para o problema sanitário, o que amplia as restrições para as atividades econômicas. Com a limitação da mobilidade da população mundial muitos carros estão nas garagens, os meios de transporte públicos estão funcionando com frota reduzida e os aviões já não decolam com tanta frequência. O resultado é o aumento do estoque dos combustíveis fósseis e, dada a redução da demanda, a queda brusca de preços.

Desta vez, a queda de preço não resulta no aumento da demanda, pois o consumido está com  locomoção restrita, o consumo não é interessante. Por isso, o prolongamento da situação atual já está sendo prejudicial e pode se agravar, pois vimos que a capacidade de armazenagem é limitada. Como se sabe, o petróleo e seus derivados não podem ser simplesmente descartados. Pode não parecer, mas o cenário e os desafios atuais são resultados de trabalho intenso ao longo de séculos. E, agora temos a oportunidade de trilhar novos rumos. Diante da necessária mudança de hábitos cotidianos, poderíamos reformular a nossa relação com a energia, essencial nos dias atuais.

A simples reinvenção do transporte rodoviário é uma forma de repensarmos o uso dos energéticos. Nos primeiros dias do motor de combustão interna, os carros particulares eram artigos de luxo com aptidão a se tornar um incômodo. No entanto, no final do século 20, as famílias passaram a ter, em média, dois carros. Agora, grande parte da população está presa ao uso constante de carros. Para combater o impacto ambiental do automobilismo moderno, a nova solução está na mudança para carros movidos a eletricidade e a biocombustíveis. Tal mudança exigiria pouca mudança no comportamento dos consumidores, embora ainda demandasse grandes quantidades de energia. Mas, dificilmente colocaria um final na preocupante questão ambiental. Cerca de metade do impacto ambiental de um carro vem de sua construção, manutenção e descarte. Por isso, seria necessário se repensar na importância de veículos particulares.

A energia e seu uso devem ser repensados de forma a aproveitar as oportunidades apresentadas pelas novas tecnologias. Talvez a resposta esteja na simples mudança de hábito. No dia-a-dia, é preciso rever os hábitos desperdiçadores criados pelo histórico de energia barata e abundante. É preciso comprometimento, também, no consumo. Assim sendo, a resposta está muito além da mudança no suprimento energético. A locomoção pode ser repensada com prioridade por caminhadas, bicicleta e maior aproveitamento do sistema de transporte público, com carros particulares apenas preenchendo as lacunas.

No transporte aéreo, as aeronaves paradas em todo o mundo nas últimas semanas reduziram as emissões de carbono pela indústria da aviação. E, existe a possibilidade dessas reduções serem mantidas, quando o setor se recuperar após a crise global. Uma das alternativas são os combustíveis sustentáveis, até então pouquíssimos usados. A substituição do combustível tradicional de querosene por biocombustíveis para aviação representaria uma das maneiras mais rápidas de reduzir as emissões do setor em escala significativa. Os combustíveis sustentáveis exigem pouca mudança na arquitetura das aeronaves atuais. Agentes do setor argumentam que o fator mais importante para o estabelecimento desses combustíveis na aviação é o incentivo do governo, de forma a tornar o custo líquido para as companhias aéreas competitivo em relação ao combustível convencional.

Todo esse novo contexto é apropriado à reflexão sobre o futuro da energia. A importância do petróleo foi renovada? Mais uma vez, a geopolítica do petróleo ganha novos contornos. A imposição do isolamento social pelo vírus reduz a demanda nos levando a reinventar a maneira como vivemos e trabalhamos. Como permanecerá a necessidade de transformação do suprimento de energia em resposta às mudanças climáticas? Será mesmo que a solução para a redução de emissões consiste apenas na mudança de um sistema de fornecimento para uma alternativa menos poluente, com uma escala crescente de produção? Parece que a solução está muito além do simples aumento da participação das energias renováveis. A transição precisa de consistência. É tempo de repensar. Mas parece que a sociedade depois da pandemia vai prestar mais atenção as mudanças climáticas. O vírus veio de um dia para o outro, as mudanças climáticas estão vindo a conta gotas. Mas quando o copo começar a transbordar teremos consequências maiores do que a que vivemos com o Covid-19. Portanto, achamos que a aceleração da transição energética ocorrera de forma mais rápida do que estava acontecendo antes da pandemia.

(Fonte: EVEx)

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Tags: Adriano Pires, Covid-19, Emissões de carbono, Energia, Petróleo

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