Escolhas e Oportunidades

Por Adriano Pires para o Estadão.

Tempos de pandemia, momentos de disrupção que leva a destruição criativa Shumpeteriana, volta do crescimento, da renda, do emprego e de melhor qualidade de vida. Essa seria o roteiro ideal, com que todos sonhamos. Será possível? Ninguém sabe. As perguntas mudaram e ainda não temos as novas respostas. Quando teremos? Ninguém sabe. Qual o novo patamar do preço do petróleo e como fica a transição energética? Ninguém sabe. Quando teremos a vacina para o Covid-19? Ninguém sabe. Quando será a reabertura da economia no Brasil? Ninguém sabe. Nos economistas, os cientistas políticos, jornalistas e toda a sociedade estamos tentando encontrar respostas novas, como os cientistas que trabalham dia e noite nos laboratórios tentam descobrir a vacina que combata a Covid-19. Quem achar nesse momento que possui as respostas ou soluções, ou está olhando pelo retrovisor ou são oportunistas vendendo ilusões. Nesses momentos sombrios e com a economia dizimada a principal virtude e a modéstia.

O fato de não termos respostas não deve nos impedir de pensar onde erramos e procurar as saídas para o momento estamos vivendo. O mundo inteiro vai ter de se repensar. O desafio e saber a dimensão da mudança. Não e mais tempo de nos prendermos a dogmas e a crenças. O COVID-19 e sem precedentes na humanidade, pela sua surpresa, sua violência e seu caráter universal. Atingiu 170 países e mais da metade da população mundial. Precisamos construir modelos com Estados competentes e eficientes que resgatem dividas sociais como a da saúde pública e que forneçam infraestrutura adequada e de qualidade para as cidades que cada vez estão mais adensadas.

Esses desafios estão presentes no Brasil. Para dar inicio ao enfrentamento, e preciso combater um mal que aflige o país a décadas: os extremos. O nos contra eles. Temos de deixar de ser o país de torcida entre, por exemplo, o gigantismo estatal e o neoliberalismo, lockdown ou abertura total e, entender que o dinheiro publico não pode ser jogado do helicóptero o tempo todo. Isso só vai dificultar o retorno do crescimento dos menores do mundo, aprofundar a crise e ao aumentar os trabalhos informais.

A crise vai demandar uma grande flexibilidade do trabalho, com o objetivo de recuperar de hoje ate o final de 2020 as horas perdidas durante a quarentena. A escolha não e vida ou economia e sim vida e economia. A recuperação da economia passa pela adoção de medidas estratégicas e reformistas. O governo e o Congresso precisam ser reformistas propondo mudanças infra legais e nos marcos regulatórios. Temos de aproveitar a crise para fazer as reformas tributarias, administrativas, o marco legal do saneamento, o fim do regime da Partilha no petróleo, modernização do setor elétrico, uma nova lei do gás natural. Tudo isso, mostrando que não existe conflito entre um programa de investimentos públicos e privados inteligentes. Temos uma oportunidade histórica, de quitar uma divida social ao reduzir o gap de infraestrutura do Brasil. Para isso, temos de criar ambiente amigável para investimentos em saneamento, infraestrutura logística, construção de habitações de baixa renda, infraestrutura de gás e energia, dentre outros.

E um momento único dado o custo de capital baixo e a necessidade de gerarmos renda e emprego. Também temos, alto grau de ociosidade nas cadeias de fornecimento em setores como siderurgia, equipamentos e custo de energia (gás, petróleo e energia elétrica) menores.

Não se trata de ressuscitar o mundo de ontem, mas de inventar um modelo brasileiro através de um grande debate por parte de toda a sociedade. Um modelo que assegure um equilíbrio entre o desenvolvimento, a solidariedade, os investimentos privados e o papel do Estado, reduzindo os custos de transação, o numero de trabalhadores informais e melhorando as condições ambientais. A hora e de escolhas e oportunidades geradas pelo momento de disrupção que levará à destruição criativa. No livro Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll, Alice, em certa encruzilhada do destino, pergunta ao sábio gato Cheshire: qual o melhor caminho? Ele responde: depende para onde você deseja ir. Escolha.

(Fonte: Estadão)

Adriano Pires é sócio fundador e diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE).

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