Ineditismos e surpresas no mercado de petróleo, por Adriano Pires

Consumo caiu igual ou mais que os preços

Adriano Pires para o Poder360.

Estação de Petróleo da Saudi Aramco, em Abqaiq (Foto: Reprodução/Saudi Aramco)

O mercado de petróleo desde o início da pandemia já passou por diferentes momentos. O ponto comum a todos são as surpresas e os ineditismos. No começo do ano quando a crise começa a aparecer turbinada pelo coronavírus, a Opep+ resolve intervir no mercado de óleo. A ideia proposta pelos sauditas aos russos era de cortar 1,5 milhões/barris/dia para tentar segurar o preço, que na ocasião estava em 45 dólares/barril.

A Rússia não aceitou com o argumento de que cortar a produção significava ceder mercado aos produtores de shale oil americano. Os sauditas, para mostrar poder, dobraram a aposta, aumentando a produção de óleo e causando uma queda nos preços superior a 30%.

Essa atitude dos sauditas provocou um enorme tumulto no mercado que, associado aos efeitos do vírus, levou o barril para menos de 30 dólares. A partir daí a volatilidade dos preços do petróleo aumentaram mais quase sempre abaixo dos 30 dólares/barril. Parecia que o objetivo dos russos e dos sauditas provocando uma guerra de preços seria atingido eliminando do mercado os produtores de shale e mesmo os de biocombustíveis.

Vendo essa situação, o presidente Trump tentou estabilizar os preços do petróleo acusando os russos e os sauditas de terem enlouquecido e ameaçando comprar produção de shale para estocagem e criar um imposto de importação. Diante dessas ameaças a Opep+ voltou a se reunir lançado um plano de cortes.

Com a queda da demanda de petróleo ultrapassando 25 a 35 milhões de barris por dia (mbpd), retomou-se as conversas por parte da Opep+, EUA e países do G-20 para buscar uma solução que permitisse passar pelo período de crise de demanda que invariavelmente –dado o estresse na capacidade de armazenamento mundial– envolveria cortes de produção.

Em 9 de abril, a Opep+ conseguiu fechar um acordo sobre o corte de oferta. Segundo o que foi decidido na reunião, a Opep+ vai reduzir a oferta em 9,7 milhões/barris/dia em maio e junho, 7,6 no segundo semestre e 5.6 milhões/barris/dia do 1T21 a abril de 2022. A ideia de anunciar cortes futuros criaria um movimento especulativo tentando o aumento de preço no mercado futuro.

O que os russos e os sauditas nunca poderiam imaginar e que a crise do coronavírus iria revogar a lei da oferta e da procura. Hoje o mundo está nadando em óleo, os preços com isso caíram drasticamente. Porém, é aí que se encontra o ineditismo. O consumo caiu igual ou mais que os preços.

A brincadeira da Rússia e da Arábia Saudita de brincar na beira do abismo provocou um maior tombo de preços na história do petróleo. De nada adiantou anunciar cortes de 9,7 milhões/barris/dia se entram no mercado diariamente 20 a 25 milhões/barris dia que não encontram comprador. Ou seja, enquanto não for restaurada a lei da oferta e da demanda os preços continuarão numa trajetória de queda.

A outra grande surpresa com um alto grau de ineditismo foi o petróleo WTI chegar a zero na terça-feira, 20 de abril, no mercado americano. O vencimento de contratos físicos, a falta de capacidade de estocagem e a continuada queda da demanda acabou criando a bizarrice de petróleo a zero dólar/barril.

O custo de armazenagem + o de transporte ficou superior ao barril de petróleo. Esse fenômeno tem tudo para se repetir em junho no vencimento de novos contratos e contaminar o preço do petróleo Brent, levando a crise de consequências na geopolítica mundial.

Existem três maneiras para se enxugar a oferta de petróleo. Porém, a única efetiva e válida no curto prazo é uma intervenção do governo no mercado de petróleo americano. As outras duas alternativas, que seriam a retomada do consumo e utilização de estoques, não existem nesse momento.

No médio prazo, caso o plano de retorno da economia apresentado pelo presidente Trump com três fases seja um sucesso, é bem provável um crescimento da demanda de combustíveis no segundo semestre. Entretanto, o presidente Trump não deveria apostar na hipótese de retorno do consumo e sim intervir imediatamente no mercado de petróleo. Mas como seria?

Existem três maneiras. O secretário do Tesouro americano, Steven Mnuchin, já apresentou dois: empréstimos ou compra de ações das empresas. Mas parece que ambas não são as intervenções incapazes de trazer de volta uma estabilidade ao mercado de petróleo americano.

É bom não esquecer que o problema hoje é físico. Dessa forma, a intervenção mais correta seria o governo americano comprar barris de shale oil, pagando, por exemplo, 30 a 40 dólares/barril, com o compromisso dos produtores de cortarem, imediatamente, a produção em algo como 5 milhões barris/dia.

Seria por parte do governo uma compra do acreage/produção antecipada. Se fizermos a conta e compararmos com as ajudas e estímulos que estão sendo dados a outros setores da economia, veremos que os valores não serão tão elevados e expressivos.

Nesse momento, criar um imposto de importação não terá efeito nenhum, já que é um problema físico que atinge o mercado americano. Se não houver uma ação do governo americano, é muito provável que o petróleo WTI vá novamente a zero/barril em junho e dessa vez poderá ter a companhia do petróleo brent.

(Fonte: Poder360)

Adriano Pires é sócio fundador e diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE).

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