Lições para o planejador do sistema elétrico, por Pedro Rodrigues

Califórnia oferece ensinamento

Para planejarmos transição

Por Pedro Rodrigues para o Poder360.

Foto por Yaoqi LAI no Unsplash

Quando o assunto é o futuro da matriz energética global existem inúmeros dissensos entre os especialistas, mas 2 consensos são muito claros. O 1º deles é o movimento da transição energética para uma matriz de baixo carbono. O 2º é a eletrificação cada vez maior da matriz energética global. Da mesma forma que era impensável para um baby boomer viver num mundo sem o petróleo ou o automóvel, é impensável para a geração Z viver num mundo sem preocupação com o meio ambiente e uma tomada elétrica.

Mesmo no campo dos consensos, existem diferentes caminhos para chegarmos numa matriz energética mais eletrificada e 100% limpa. Muitas dessas soluções ainda estão em fase de teste em todo o mundo. De soluções economicamente viáveis como o uso das baterias, ao hidrogênio como fonte primária de energia, todas as tecnologias procuram responder e equacionar o seguinte problema: como gerar energia limpa, com fontes renováveis, sem perder a segurança energética e a resiliência elétrica com preços competitivos. Enquanto as tecnologias não solucionarem esse dilema, discutimos a melhor transição energética alongando a vida de alguns combustíveis fósseis e nos protegendo do risco de blackouts e apagões.

Diferentes países possuem as suas soluções para esse problema e como não existe nenhuma certeza sobre a questão, todas estão igualmente certas. É mais ou menos assim: todos partem por olhar e aproveitar as vantagens locais e a adoção de políticas públicas adequadas que permitem, no curto e médio prazo, crescimento econômico, respeitando o meio ambiente e construindo uma matriz com a meta de ser cada vez mais limpa. Nesse sentido, o gás natural possui todos os atributos para ser o combustível da transição energética e seu uso vem ganhando espaço na matriz de vários países.

Mesmo sendo um combustível fóssil, o gás natural é muito menos poluente que o carvão, motivo pelo qual a China vem desenvolvendo um enorme programa para a troca das termoelétricas a carvão para gás natural. O Japão seguiu pelo mesmo caminho, sem nenhuma fonte primária de energia nacional e após o acidente nuclear de Fukushima, a construção de terminais de regaseificação e o uso do gás natural passou a ser a grande solução energética japonesa. A Alemanha, com todas as suas preocupações ambienteis, também viu no gás natural o combustível necessário para sua transição energética. Moscou e Berlim trabalham no ambicioso projeto Nord Stream 2, um gasoduto de 1.200 quilômetros, entre a Rússia e a Alemanha, com capacidade de transportar 55 bilhões de metros cúbicos de gás natural por ano.

Apesar do posicionamento claro de alguns países com relação à importância do gás natural como combustível na transição energética, outros entendem que a transição energética deve ser acelerada retirando ou dificultando a penetração mesmo do gás na matriz energética. Sendo o maior consumidor e produtor de gás do mundo, os Estados Unidos vivem um problema curioso. O Estado da Califórnia conhecido como berço das empresas de tecnologia, do consumo de energia elétrica baseado em fontes renováveis e por promover políticas ambientais muito restritivas, vem pagando um preço alto por desincentivar a geração termelétrica a gás natural.

Surpreendidos por uma forte onda de calor, a demanda por energia elétrica na Califórnia cresceu de forma abrupta na última semana. Num sistema pouco resiliente e seguro do ponto de vista elétrico, os californianos passaram a sofrer blackouts repentinos e foram convocados pelo operador do sistema a economizarem energia, caso contrário, apagões programados seriam necessários. Mas qual a origem desse problema? Nos últimos anos, com a meta ambiciosa de ter uma matriz 100% limpa até 2045, a Califórnia tirou do sistema mais de 9 gigawatts de geração termoelétrica a gás, energia essa que poderia abastecer 6,8 milhões de residências, dando espaço para maior penetração de energias renováveis. Com isso o sistema elétrico local perdeu segurança e resiliência, com o aumento abrupto da demanda, começou a faltar luz. Segundo o governador da Califórnia, Gavin Newsom: “Let me just make this crystal clear: We failed to predict and plan these shortages –and that’s simply unacceptable”. (Tradução livre: “Deixa-me ser o mais claro possível: Nós falhamos em prever e planejar essas faltas – e isso é simplesmente inaceitável”).

De outro lado, defensores da aceleração da transição energética afirmam que esse é um desafio que qualquer outro Estado ou país interessado em limpar a matriz irá enfrentar. Para os defensores dessa tese o problema não está no aumento da geração de energia renovável, mas na falta de baterias com capacidade de segurar o sistema. Segundo especialistas, o Estado da Califórnia precisaria hoje de 12 gigawatts de baterias para realizar esse backup da energia intermitente. Porém, essa solução faria com que as tarifas de energia elétrica da Califórnia, que já são umas das mais elevadas do mundo, ficassem ainda mais caras.

O fato é que a discussão sobre quanto tempo ainda vamos viver a transição energética ainda é uma dúvida. A certeza é que hoje ter uma matriz elétrica 100% limpa ainda é um desafio caro, arriscado e com incertezas sobre os caminhos que a tecnologia vai seguir. Nem tanto ao mar e nem tanto à terra, o Norte é que precisamos de um mundo com zero emissões, mas precisamos de segurança energética e tarifas que pensem no consumidor. Por esses motivos a diversificação de fontes é fundamental e aproveitar as nossas vantagens comparativas é o caminho. Fica a lição para os planejadores da EPE que nos seus Planos, como o de 2050, projetam o crescimento das fontes intermitentes e acham as térmicas já são coisas do passado.

(Fonte: Poder360)

Pedro Rodrigues é sócio do Centro Brasileiro de Infraestrutura e sócio fundador do CBIE Advisory.

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