Em meio a rumor de greve, preço do diesel atinge recorde no ano

Por André Ramalho e Rodrigo Polito, para o Valor Econômico

Em meio a rumor de greve, preço do diesel atinge recorde no ano
Rumores de nova greve dos caminhoneiros circula nas redes sociais. (Foto: Frederico Haikal/Folhapress)

RIO – A ameaça de uma nova greve dos caminhoneiros, que circula nas redes sociais — mas é descartada pelas principais lideranças da paralisação de maio de 2018 — acontece num momento em que os preços do diesel atingem seus patamares mais altos no ano. Os dados do mercado, no entanto, indicam que os reajustes da Petrobras nas refinarias não têm sido repassados, na íntegra, aos consumidores finais.

Segundo dados da empresa de pesquisa de mercado Triad Research, o preço médio do litro do diesel S500 (com maior teor de enxofre, de 500 partes por milhão), nas bombas, atingiu, neste domingo (24), o patamar mais caro do ano, de R$ 3,653. O levantamento de preços da Agência Nacional de Petróleo (ANP) mostra que os preços médios de março são os maiores dos últimos quatro meses.

Apesar do aumento, os números do mercado indicam que o impacto para o consumidor final tem sido atenuado, sobretudo pelos postos. Desde 1º de janeiro, a alta acumulada nas refinarias é de R$ 0,28 o litro, mas, na bomba, o ritmo dos reajustes tem sido menor. Segundo a ANP, o preço médio das distribuidoras acumula, em 2018, um aumento de cerca de R$ 0,21 o litro, enquanto o preço do combustível para o consumidor final, de acordo com a Triad e ANP, é de aproximadamente R$ 0,10 o litro.

Em termos relativos, o preço do diesel na refinaria, no âmbito do Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA), da FGV, acumulou uma alta de 13,3% no primeiro bimestre. Hoje, o preço vendido pela estatal, de R$ 2,1432 o litro, está 15,5% mais caro que o preço do primeiro dia do ano. Já a pesquisa da Triad revela que os preços médios de março estão 2,7% mais caros que os preços médios de janeiro. Por sua vez, os preços das distribuidoras da última semana, segundo a ANP, estão 7% maiores que aqueles da primeira semana de janeiro.

“Os números sinalizam que o aumento nas refinarias tem sido absorvido pelo restante da cadeia”, comenta Miguel Santos, sócio-diretor da Triad, que desenvolveu um aplicativo e disponibilizará aos consumidores, a partir da semana que vem, o seu banco de dados de preços coletados em cerca de 22 mil postos em todo o país.

Para o presidente da Federação Nacional do Comércio de Combustíveis e de Lubrificantes (Fecombustíveis), Paulo Miranda, que representa os postos, as empresas do setor têm encontrado dificuldades para repassar, na íntegra, os reajustes pra os clientes finais.

“Depois da greve do ano passado, reajustar os preços tem sido muito mais sensível. Não temos repassado, na íntegra, por estratégias de fidelidade ao consumidor final. Temos tido mais cuidado no canal de comunicação com os clientes e com o Procon [sobre os reajustes]” comenta Miranda.

Tabela de frete

O Valor apurou que a ANP tem acompanhado as movimentações sobre uma possível greve dos caminhoneiros no próximo sábado (30). Por enquanto, contudo, a agência ainda não identificou um risco significativo de uma paralisação com proporção que afete o mercado de combustíveis.

O assunto preocupa o governo. No último dia 20, o presidente Jair Bolsonaro publicou, em sua conta particular no Twitter, que o preço dos combustíveis “é uma das principais reclamações do brasileiro” e que ele tem conversado com os “ministérios responsáveis” sobre o assunto. Bolsonaro lembrou ainda que os Estados “carregam consigo enorme responsabilidade na tributação dos combustíveis”.

A reclamação dos caminhoneiros não se restringe aos preços do diesel. A categoria quer que o governo estabeleça algum mecanismo para que o aumento do diesel, baseado no dólar, seja feito apenas uma vez por mês, e não mais diariamente. Eles reclamam também que a tabela de preços mínimos de fretes para o transporte de cargas, prometida pelo governo Michel Temer, não está sendo cumprida.

O presidente da Associação Nacional das Distribuidoras de Combustíveis, Lubrificantes, Logística e Conveniência (Plural), Leonardo Gadotti, afirma que todos os elos da cadeia têm contribuído de forma a não repassar integralmente os reajustes nas refinarias. Ele destacou que as margens das distribuidoras estão em queda nos últimos 12 meses e que os preços dos combustíveis não são o real problema dos caminhoneiros.

“O problema dos transportadores não é o preço do diesel. É que o país não cresce e não há carga. Precisamos solidificar o conceito de liberdade de preços, de que é o mercado que faz o mercado. [O não repasse integral dos reajustes nas refinarias] é o mercado atuando por meio da oferta e demanda”, disse.

Desde o início do ano, quando se encerrou o programa de subvenção ao diesel, implementado pelo governo Temer para encerrar a greve de maio de 2018, a Petrobras vem reduzindo a frequência dos reajustes nas refinarias, por meio de mecanismos de hedge. No acumulado do ano, a estatal reajustou os preços 13 vezes até o momento, uma média de um reajuste a cada seis dias – período maior que os reajustes diários praticados antes da greve do ano passado.

Para o diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), Adriano Pires, a estratégia da Petrobras, de prática de hedges para suavizar as oscilações nos preços, é um mecanismo de mercado adequado para evitar os reajustes diários.

“O uso do hedge para a gasolina e o diesel está correto. É um mecanismo de mercado”, afirmou o consultor.

(Fonte: Valor)

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