Petrobras altera política de preço do diesel e anuncia ‘cartão caminhoneiro’

Por Ramona Ordoñez e Gabriel Martins, para o jornal O Globo

Petrobras altera política de preço do diesel e anuncia 'cartão caminhoneiro'
Petrobras mudou sua política de reajuste de preços do diesel de produtor (Foto: Reprodução)

RIO — A diretoria da Petrobras anunciou nesta terça-feira que os preços do óleo diesel em suas refinarias passarão a ser reajustados, para cima ou para baixo, em períodos não inferiores a 15 dias. Desde janeiro, com o fim dos subsídios do governo federal ao combustível, a estatal havia adotado o prazo de sete dias para os reajustes. A Petrobras anunciou ainda que a BR Distribuidora vai lançar o “Cartão Caminhoneiro”, que permitirá a antecipação da compra de volumes maiores de diesel a um preço fixo. No ano, o combustível acumula alta de 15,56% nas refinarias.

A estatal garante que mantém a política de alinhar seus preços ao mercado internacional. Para isso, continuará fazendo uso de mecanismos de proteção (hedge), a fim de preservar a rentabilidade de suas operações de refino.

Especialistas receberam bem a decisão da Petrobras. David Zylbersztajn, ex-diretor da Agência Nacional do Petróleo (ANP), ressalta que o “Cartão Caminhoneiro”, por travar o preço por um período mais longo, beneficia a categoria:

— O objetivo é permitir maior previsibilidade de preços para o mercado. A Petrobras pode ganhar e perder com essa mudança, pois vai depender de quanto ela fixou o preço para o período e como será a evolução do combustível no mercado internacional.

Edmar Almeida, do Instituto de Economia da UFRJ e especialista em petróleo e gás, lembra que a Petrobras tem pouca competição:

— Lá fora, os reajustes não são repassados imediatamente: olham os concorrentes primeiro. E é importante, ao mesmo tempo em que mantém a paridade com os preços internacionais, a Petrobras buscar uma política de preços mais aceitável para a sociedade.

Alívio nas pressões

Adriano Pires, do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), considera que o prazo maior para reajuste não será bom nem para a Petrobras nem para o mercado:

— A empresa deveria ter liberdade para praticar sua política de preços. Apesar do mecanismo de hedge, haverá riscos, e nada garante que, passados 15 dias, a estatal poderá repassar integralmente a alta de preços do período.

Segundo um analista que não quis ser identificado, a medida é uma reação natural da estatal para evitar uma nova greve dos caminhoneiros:

— A mudança pode arrefecer o movimento grevista e pode ter sido um dos motivos para evitar uma nova parada na economia.

Essa também é a opinião do analista do banco UBS, Luiz Carvalho. Em relatório, ele afirmou que a medida “está ligada ao fluxo de notícias sobre a possibilidade de uma nova greve de caminhoneiros”. E disse que isso dá margem a questionamentos legais por importadores independentes.

O mercado acionário, porém, aprovou as medidas. As ações ordinárias (ON, com voto) da Petrobras avançaram 4,18%, e as preferenciais (PN, sem voto) subiram 4,72%. Pesaram ainda a valorização de 1,19% (US$ 68,01) do barril de petróleo tipo Brent e a expectativa de que o acordo da cessão onerosa, relativo à exploração no pré-sal, saia em breve.

— O cartão pré-pago faz com que o caminhoneiro não participe diretamente da volatilidade, aliviando possíveis pressões por parte da categoria — disse Raphael Figueredo, analista da Eleven Financial.

Apesar de rumores de uma nova greve de caminhoneiros, o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência, que monitora a movimentação da categoria, não vê neste momento indícios de uma paralisação. O diagnóstico é que não se deve fazer alarde porque a categoria está mais desunida do que em 2018.

A estatal não deu detalhes sobre o “Cartão Caminhoneiro”: disse que os estudos serão concluídos em 90 dias. Em janeiro, em entrevista ao GLOBO, o presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, já havia antecipado essa ideia.

(Colaboraram Jussara Soares e Gustavo Maia)

(Fonte: O Globo)

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