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“Insanidade é fazer a mesma coisa repetidamente e esperar resultados diferentes.”

Na madrugada do dia 25 de fevereiro, a Câmara dos Deputados aprovou o projeto de lei que cria o ReData — Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter. O governo celebra. Mas, por trás dos aplausos, o Brasil repetiu um erro histórico para tentar atrair a nova indústria do século XXI, recorreu ao manual de políticas públicas do século XX.

Antes de entender o problema, é preciso entender o que está em jogo. Não existe um único tipo de datacenter. Os chamados datacenters de baixa latência são instalações de armazenamento e processamento convencionais, voltados ao processamento de dados em tempo real para usuários locais. Essa infraestrutura já é conhecida no Brasil, com destaque para o estado de São Paulo, que concentra a maior quantidade desse tipo de datacenter.

Porém, os datacenters de IA são uma categoria completamente diferente. Esses são fábricas de computação, chamados hyperscale, com densidade energética brutal, montanhas de GPUs e demanda contínua de gigawatts. Não são instalações de suporte, mas o coração da nova economia digital. É esse segmento que hoje move trilhões de dólares ao redor do mundo e é exatamente esse que o Brasil precisa atrair — e que o ReData, com sua arquitetura de subsídios e condicionalidades, muito provavelmente afastará.

O projeto aprovado traz o velho tempero brasileiro para atração de investimentos. Suspensão por cinco anos tributos como IPI, PIS/Cofins e Imposto de Importação para equipamentos destinados a datacenters. Em troca, as empresas precisam:

(i) usar exclusivamente energia renovável ou limpa;

(ii) disponibilizar ao menos 10% de sua capacidade ao mercado nacional;

(iii) cumprir exigências de eficiência hídrica; e

(iv) aportar 2% dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento no país. Há ainda, como sempre, a proteção da Zona Franca de Manaus para componentes fabricados localmente. A receita é velha conhecida, reserva de mercado, conteúdo local e condicionantes ambientais que vão além do que qualquer país concorrente impõe.

O paralelo com a indústria automobilística é inevitável. Durante décadas, o Brasil montou carros caros e defasados graças a uma bolha tributária que nunca virou competitividade. As empresas que vieram não inovaram e otimizaram o modelo de extração de subsídio. Quando a proteção se tornou insustentável, muitas foram embora. O ReData replica essa lógica criando um ambiente artificial no qual o negócio se ancora no incentivo fiscal, não na eficiência produtiva.

Enquanto isso, o mundo acelera. Nos Estados Unidos, o modelo é o oposto. O governo Trump usou decretos executivos para eliminar obstáculos regulatórios, acelerar licenças ambientais, liberar novas linhas de transmissão e integrar geração renovável com fontes firmes — nucleares e gás natural — para garantir a confiabilidade que data centers exigem.

O resultado dessa fórmula é o Projeto Stargate. Com investimento de US$ 500 bilhões em infraestrutura de IA, com mais de US$ 400 bilhões já comprometidos em três anos. Apenas em Abilene, Texas, uma equipe de 6.400 trabalhadores constrói o que pode ser o maior supercluster de computação da história. A Meta ergue o que pode ser o maior datacenter do hemisfério ocidental na Louisiana, com investimento de US$ 10 bilhões. A Google, OpenAI, Microsoft e a Meta juntas já comprometeram mais de US$ 1 trilhão em infraestrutura digital para os próximos anos. Os EUA já têm mais de 5.400 datacenters ativos. Só em 2024, mais de 135 data centers hyperscale foram inaugurados.

No Brasil, comemoramos a perspectiva de um primeiro e único datacenter do TikTok no Ceará. Um projeto que levou anos de negociação, envolveu reuniões do presidente da República e gerou impasses na rede de transmissão local. E mesmo o Stargate, ao selecionar seu primeiro projeto na América Latina, escolheu a Argentina e não o Brasil.

A corrida por datacenters de IA não é apenas sobre tecnologia. É a nova industrialização, são as “fábricas 4.0” do presente. Países que acertarem a política pública hoje terão a infraestrutura digital que comandará a economia das próximas décadas. Os que olharem para esse setor com o olhar do século passado — reservas de mercado, conteúdo local, subsídios perpétuos — estão trilhando o caminho do atraso.

Publicado originalmente pelo Congresso em Foco.