Petrobras tomba na bolsa, mas petróleo barato pode jogar a favor da empresa
Queda após trégua entre EUA e Irã reduz receitas no curto prazo, mas abre espaço para ganhos operacionais e estratégicos
Por Letícia Furlan
A queda recente do petróleo, após o anúncio de cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã, foi interpretada pelo mercado como um alívio imediato — e não necessariamente como uma má notícia para a Petrobras. Com o Brent recuando para a casa de US$ 93 a US$ 95, após superar US$ 110 dias antes, o fim parcial do chamado “prêmio de guerra” muda o jogo para a estatal brasileira.
A companhia abriu a quarta-feira, 8, com queda superior a 7% na bolsa brasileira. Mas, apesar da queda vinda da lógica de perda de receita, preços mais baixos podem melhorar margens e reduzir pressões políticas sobre a companhia.
Isso porque a Petrobras opera de forma integrada, da produção ao refino, o que cria mecanismos de compensação. Com o petróleo mais barato, o custo da matéria-prima nas refinarias cai, abrindo espaço para ganhos de margem na venda de combustíveis, especialmente se os preços ao consumidor não acompanharem imediatamente a queda internacional.
Além disso, a companhia reduz gastos com importação de derivados, ainda necessária para abastecer o mercado interno. Esse efeito preserva o caixa em momentos de recuo do Brent.
Outro fator relevante está no pré-sal. Com custo de extração entre US$ 6 e US$ 8 por barril, a Petrobras segue altamente lucrativa mesmo em cenários de petróleo significativamente mais baixo — uma vantagem competitiva frente a produtores com estruturas mais caras, como o shale americano.
Para Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), há ainda um componente político relevante. “Se esse petróleo baixar mesmo, diminui a pressão política na Petrobras, que hoje é muito forte”, afirma.
A queda também ajuda a conter a inflação, o que melhora o ambiente macroeconômico — um fator que tende a beneficiar empresas de capital aberto no médio prazo.
Nova geopolítica abre oportunidades
O recuo nos preços acontece em meio a uma mudança mais profunda no mercado global de energia. Pela primeira vez, o Irã conseguiu bloquear o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial — um evento que, mesmo com trégua, já alterou a percepção de risco.
“A geopolítica do petróleo mudou inteiramente. Aquele mundo de antes não existe mais”, diz Pires. “Isso muda tudo. O custo de seguro vai ser mais caro, não volta ao que era antes. E o Irã passa a ter uma posição mais relevante na geopolítica do petróleo. No balanço, mesmo com perdas, ele saiu melhor do que muita gente”, complementa.
Na prática, isso deve acelerar a busca por diversificação de fornecedores de petróleo e gás. Países fora do eixo tradicional do Oriente Médio passam a ganhar relevância — e o Brasil está nesse radar.
Segundo o especialista, o país tem oportunidade de atrair investimentos e ampliar a produção, inclusive em novas fronteiras exploratórias. Mas isso depende de previsibilidade regulatória. Medidas como aumento de impostos sobre exportação de petróleo, adotadas recentemente, vão na direção oposta e elevam o risco para investidores, afirma Pires.
“Para o Brasil se beneficiar, precisa atrair investimento — e isso exige segurança jurídica e regulatória”, afirma.
Venezuela entra no radar
Outro potencial beneficiado desse novo cenário é a Venezuela. Com grandes reservas ainda pouco exploradas e uma possível reaproximação com o Ocidente, o país pode voltar ao mapa global de investimentos em energia.
Na avaliação de Pires, a combinação entre abundância de recursos e necessidade global de diversificação deve acelerar a entrada de grandes petroleiras no país.
O movimento ocorre em um contexto ainda incerto. Apesar da trégua, o mercado segue sensível a qualquer sinal de escalada. Os preços podem recuar para a faixa de US$ 80 caso o acordo avance, mas não está descartado um retorno aos US$ 100 já nas próximas semanas. “As partes envolvidas surpreendem muito. Você pode ainda ter uma volta do petróleo caro na próxima semana, dependendo de como essa abertura do estreito vai se dar — se os Estados Unidos vão colocar gente ali para garantir que não haja ataque a navios, ou se o Irã vai impedir esse tipo de presença”, explica o especialista.
Para a Petrobras, o cenário resume o momento atual: menos previsível, mas também mais equilibrado — e, em alguns aspectos, até mais favorável.

Espaço Adriano Pires
9 de Abr de 2026