Petróleo: ataque à infraestrutura de produção pode tornar alta do petróleo estrutural, afirma especialista
Por Luciana Casemiro
09/03/2026
O direcionamento dos ataques às infraestruturas de petróleo e gás na escalada do conflito no Oriente Médio pode transformar a alta temporária, conjuntural do preço do barril de petróleo — que, na manhã desta segunda-feira, esbarrou em US$ 120 — em uma questão estrutural. Até aqui, o problema era mais logístico, especialmente pelo fechamento do Estreito Ormuz, na região que abriga cinco dos dez maiores produtores globais de petróleo. No entanto, os ataques feitos pelo Irã a refinarias de petróleo e gás na Arábia Saudita, Catar, Bahrein, Kuwait e Omã, além da investida israelense contra instalações petrolíferas em Teerã, podem levar a uma redução de oferta por um período mais prolongado. Isso poderia dificultar a queda da cotação, mesmo com o fim do conflito, explica Adriano Pires, sócio-fundador do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE).
— Essa é uma guerra do petróleo, e o preço não subia por aumento de demanda ou redução de oferta, mas por uma questão logística. No entanto, quando o Irã bombardeia uma refinaria na Arábia Saudita e a estrutura de gás do Catar — o que leva à interrupção da produção e a um aumento de 50% no preço do gás na Europa — muda a direção do conflito. Israel e Estados Unidos dobraram a aposta ao atacar a refinaria em Teerã, mostrando que querem acuar o governo iraniano e resolver rapidamente essa guerra. Mas, se o conflito se prolongar e as estruturas de produção forem, de fato, danificadas, a alta de preços poderá se tornar estrutural, por redução da oferta de petróleo — ressalta Pires.
Na avaliação do especialista, que atua há mais de três décadas no setor, a cotação do barril só deve voltar a um patamar abaixo dos US$ 100, onde se encontra no momento, se houver alguma sinalização de negociação para o fim do conflito.
— Uma vez danificadas as infraestruturas de produção, não dá para dizer qual seria o valor limite do petróleo — diz Pires.
O aumento do preço do petróleo tem um efeito dominó e pode elevar a inflação global, o que não interessa a nenhum país — nem mesmo aos Estados Unidos, pivô da guerra. O governo de Donald Trump enfrenta uma crise de popularidade e terá eleições de meio de mandato este ano, uma alta de preços aos consumidores tornaria o cenário desfavorável ao presidente.
É nesse contexto que os países do G7 — grupo das economias mais ricas do mundo — discutem a liberação de estoques estratégicos. A Europa teria cerca de 80 dias de reservas, período em que poderia amortecer a alta de preços imposta pela guerra, pondera Pires. A questão é quanto tempo o conflito vai durar e qual será o tamanho do estrago nas estruturas de produção. É isso que ditará qual será o patamar do preço do petróleo, se volta a variação entre US$ 60 e US$ 70 que vinha sendo o padrão ou se alçará um novo nível.

Imprensa
10 de Mar de 2026