Revista Oeste | Adriano Pires: ‘Há ingerência de Lula na Petrobras’
Especialista no setor de energia aponta ‘sanha intervencionista’ do governo, critica política de subvenção aos combustíveis e defende capitalização da companhia nos moldes da Eletrobras
E m pleno ano eleitoral, o governo Lula não se constrange em interferir cada vez mais na Petrobras e continua apostando em uma política “equivocada e populista” de subsídios aos combustíveis para segurar a alta dos preços, principalmente da gasolina e do diesel. A avaliação é do economista Adriano Pires, sócio-fundador e diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE) e um dos maiores especialistas do país no setor de energia.
Em entrevista a Oeste, Pires afirma que as guerras na Ucrânia e no Oriente Médio mudaram profundamente o funcionamento do mercado de petróleo, levando a um “novo normal” caracterizado por forte oscilação na cotação da commodity e maiores riscos inflacionários. “Claramente, há uma ingerência do Lula na Petrobras e isso é muito grave. Ele não está preocupado com o acionista da empresa. Está preocupado com o governo dele e em se reeleger”, critica.
Pires diz que o modelo de empresa de capital misto da Petrobras, que combina participação de Estado e mercado — no qual o governo detém a maioria das ações com direito a voto e comanda o negócio, mas que permite que qualquer pessoa possa comprar papéis da companhia na Bolsa de Valores —, está esgotado, não gera riqueza ao país e precisa ser reformulado.
O preço médio do barril de petróleo tipo Brent, referência para omercado internacional, teve alta de 54% no segundo trimestre de2026 e atingiu US$ 104. Até onde ele pode chegar?
O mundo está vivendo um “novo normal” que se caracteriza porgrandes mudanças na geopolítica do mercado de petróleo. Essasmudanças começaram com a guerra entre Rússia e Ucrânia. Os russossão grandes produtores de petróleo, gás natural e fertilizantes. Houveuma série de sanções para a Rússia não vender mais gás e diesel para aEuropa. A partir daí, ocorreu uma reorganização do mercado. O gásnatural começou a ser mais direcionado ao mercado asiático,principalmente para a China. As sanções à Rússia mostraram que o gásdeixou de ser mera fonte de energia e se tornou insumo estratégicopara a produção de fertilizantes. Qualquer interrupção noabastecimento energético pode prejudicar a produção agrícola e fazera inflação de alimentos acelerar. Em seguida, tivemos o conflito entreEUA e Irã, que já dura seis meses e ninguém sabe quando vai terminar.Passamos a ter oscilações muito grandes do preço do petróleo,dependendo basicamente das negociações entre norte-americanos e iranianos em torno do Estreito de Ormuz, canal marítimo estratégicopelo qual passa cerca de 20% a 30% do petróleo mundial. No fundo, oconflito é logístico. Não falta petróleo. Falta rota para transportá-lo. Éum cenário ruim porque a inflação aumenta, a taxa de juros sobe e aeconomia tem crescimento menor. Não se sabe ao certo onde isso vaiparar. Vamos continuar vivendo nessa gangorra.
De que forma isso impacta a economia brasileira?
Esse processo afeta o mundo todo, mas o Brasil tem algumascaracterísticas peculiares. O petróleo, hoje, é o principal produto dapauta de exportação brasileira, superando a soja. Significa que opetróleo caro não é de todo ruim para o Brasil. Você consegueaumentar o saldo da balança comercial e também a arrecadação deroyalties. O lado negativo é que o Brasil é também importador de diesele gasolina. O preço mais alto desses produtos no mercadointernacional tem impacto inflacionário no país.
O governo federal liberou R$ 3,4 bilhões para financiar subvençõesà produção e à importação de combustíveis. Isso funciona?
O governo está numa encruzilhada. Esse “novo normal” faz com que ospreços oscilem muito. Enquanto não chegar a eleição, o governo vaimanter ou até aumentar o subsídio. Depois que passar a eleição, éoutra história. Até lá, o governo quer que o preço na bomba pelo menosse estabilize. É uma sanha intervencionista de quem quer fazerpopulismo barato com a gasolina. O governo do PT acha que é possíveljogar uma lona sobre o Brasil e o país estará protegido de qualquercrise. E começa a fazer políticas de subsídios para a gasolina e o diesel,onerando ainda mais as contas fiscais. Assim, como não aumenta opreço de diesel e gasolina, você gera uma defasagem muito grande dospreços do Brasil em relação ao mercado internacional. É uma políticacompletamente equivocada e populista em ano eleitoral.
No fim de julho, segundo a Agência Nacional do Petróleo, GásNatural e Biocombustíveis (ANP), o diesel importado subiu 13% eatingiu média de R$ 5,279 por litro, o maior valor em dois meses. Osenhor vem alertando sobre a ameaça de desabastecimento no país.Esse risco existe?
Em tese, sim. Quando o petróleo chegou a US$ 100, a defasagem entreo preço praticado aqui e lá fora chegou a quase 70%. Com umadefasagem tão grande, ou a Petrobras assume a importação total dodiesel e gera um prejuízo grande para o acionista da empresa, ouhaverá desabastecimento. Quando a empresa mantém os preçosinternos abaixo da paridade internacional, os importadores privados edistribuidores reduzem as compras externas para evitar prejuízos narevenda. O Brasil importa de 25% a 30% do diesel consumido no paísporque a produção interna das refinarias não é suficiente para suprir ademanda. Se o Brasil funcionasse como o mercado dos EUA, em quenão há nenhuma possibilidade de controle de preço, já teríamos tidodesabastecimento de diesel.
Somente no primeiro semestre, Lula participou de anúncios deinvestimentos de R$ 120 bilhões bancados pela Petrobras ou suassubsidiárias. O governo está interferindo politicamente nacompanhia?
Sim, esta é uma prática do PT: usar a Petrobras como instrumento depolítica econômica. E também para ajudar a eleger os candidatos dogoverno. Quando o Lula estava em campanha contra o Bolsonaro, em2022, ele já falava que o preço do combustível no Brasil era dolarizado,que o brasileiro não poderia pagar etc. Pura retórica eleitoral. Aliás,vamos convir que é um absurdo você subsidiar a gasolina, um produtoque nem é tão consumido pela baixa renda, que não tem carro. Noinício do governo Lula, antes de explodir a guerra no Irã, ele deu sorteporque o mercado do petróleo andou muito estável. Então, não tivemostanta intervenção no preço. Depois da guerra, no entanto, começamosa ver o governo fazer o possível e o impossível em benesses eleitorais.Claramente, há uma ingerência do Lula na Petrobras e isso é muitograve. Ele não está preocupado com o acionista da empresa. Estápreocupado com o governo dele e em se reeleger. Para não perder ocostume, o PT governa a Petrobras pelo para-brisa, fazendo as mesmaspolíticas que não deram certo e nunca darão. Infelizmente, a gestão da Petrobras faz aquilo que o governo manda fazer. Para quem temmemória curta, é sempre bom lembrar que o PT quebrou a Petrobrasno governo Dilma Rousseff. Pela forma como eles tratam a empresa,sempre há o risco de que essa sina se repita.
A Petrobras deveria ser privatizada?
O modelo de empresa de capital misto que tem o governo como sóciomajoritário já deu o que tinha que dar. É muito ruim para a empresavocê mudar de acionista principal a cada quatro ou oito anos. Tambémnão é bom que os presidentes da Petrobras tenham mandatos tãocurtos, como acaba acontecendo hoje, porque quando fazem algo deque o presidente da República não gosta, o governo vai lá e demite. Seum dia esse modelo gerou riqueza para o país, hoje não gera mais. Estána hora de discutirmos um novo formato, talvez fazendo com aPetrobras o que foi feito com a Eletrobras no governo Bolsonaro, umprocesso de capitalização que abriu caminho para a privatização. Acapitalização da Petrobras é uma discussão que está madura para serfeita no Congresso Nacional. Quanto mais tempo levarmos paracapitalizar a Petrobras, menos dinheiro a sociedade vai arrecadar.
O que um eventual quarto mandato de Lula representaria para aPetrobras e para o setor de energia no Brasil?
Sob o governo Lula, o Brasil andou para trás no setor de energia. APetrobras voltou a ser comandada mais por interesses políticos do queempresariais. O setor elétrico ficou quase quatro anos sem fazer umleilão de capacidade, que é o processo de contratação feito pelogoverno para que usinas fiquem prontas e disponíveis para gerarenergia nos momentos de maior demanda, focando a potência elétricae não a quantidade de energia consumida. Nossas tarifas estão entre asmais caras do mundo e voltamos a sofrer com risco de apagão. Ogoverno aumentou o subsídio do setor elétrico para mais de US$ 50bilhões, a principal razão para a tarifa mais cara. O gás natural só subiude preço, enquanto a demanda por ele caiu em função dos valoreselevados causados pelo monopólio da Petrobras. Não houve nenhumavanço significativo e, o que é pior, tivemos uma volta ao passado. Naárea de energia, como em outros segmentos, Lula governa olhandopara o retrovisor. Os governos petistas trazem insegurança jurídica e
regulatória ao setor, o que afasta investimentos. Um eventual quartomandato de Lula aprofundaria todo esse retrocesso.

Espaço Adriano Pires Imprensa
24 de Ago de 2026