Post

Expansão da infraestrutura digital exige fontes de energia firmes e reacende a discussão sobre o papel do gás natural, da energia nuclear e da competitividade na política energética brasileira.

Ken Griffin não é militante do gás natural. É investidor: fundou a Citadel em 1990, aos 22 anos, e fez dela um dos maiores hedge funds do mundo. Fala de energia porque energia virou linha de balanço de quem compra computação.

Numa entrevista recente, esse megainvestidor foi direto: os EUA precisam investir pesado em energia nuclear e aproveitar todo o potencial do gás natural, que já têm em abundância. E completou com a frase que deveria estar pregada na parede do Senado brasileiro: “Quem quer construir data center que construa a geração correspondente, amarre o gerador à rede e não jogue o custo no consumidor.”

O raciocínio é simples, e é o que sustenta a corrida americana por capacidade computacional. Um data center de grande porte é um consumidor eletrointensivo que roda 24 horas por dia, 365 dias por ano, e não pode piscar. Precisa de energia firme, despachável e barata — e o gás natural entrega as três coisas ao mesmo tempo. Não é acaso que, ao contrário do que se lê na imprensa, foi justamente o gás que permitiu aos EUA derrubar as próprias emissões, substituindo carvão e ganhando confiabilidade. Griffin não está pedindo subsídio ao gás, está dizendo que quem tem energia firme e barata ganha a corrida, e que quem escolhe a fonte pela estética paga a conta na tomada.

No Brasil, seguimos o caminho oposto, e o Redata é a prova. A MP 1.318/2025 caducou em fevereiro e o projeto de lei 278/2026 dorme no Senado, mas o texto que veio da Câmara já carrega um vício de origem: condiciona a habilitação ao atendimento por fontes renováveis e deixa de fora a energia nuclear, o biometano, o gás natural e os pequenos reatores modulares. As emendas do deputado Julio Lopes para incluí-los foram rejeitadas. No Senado, o senador Laércio Oliveira tenta recolocar o gás.

O erro é legislar a fonte sem olhar para o preço e para o atributo de cada uma delas. É a versão energética da reserva de mercado: em vez de deixar o mercado escolher a energia mais competitiva e confiável para cada projeto, o legislador escolhe a fonte por decreto e chama isso de política ambiental. O resultado é um data center obrigado a se lastrear em geração intermitente, que não roda quando não há sol nem vento — exatamente o oposto da segurança energética de que esse consumidor precisa.

E o mais absurdo é que o Brasil tem gás de sobra para oferecer essa firmeza. Temos gás associado reinjetado no pré-sal por falta de escoamento e gás não convencional que o veto ao fraturamento nos impede sequer de dimensionar.

Não precisamos de uma Datacenterbras nem de mais uma reserva de mercado com roupa nova. O contraexemplo é de 1997: abrimos o setor de petróleo, quebramos o monopólio, deixamos o capital privado entrar — e passamos de importadores a um dos maiores produtores do mundo. Não foi patriotismo. Foi regra clara e concorrência.

Os data centers vão ser construídos. A única pergunta é onde. E não haverá grandes hyperscale no Brasil enquanto tratarmos o gás natural como vilão numa lei que deveria fazer dele o pilar da nossa segurança energética. Griffin resumiu tudo numa frase: “…que a carga traga a geração correspondente.” Nós temos essa geração debaixo dos pés. Falta um Congresso que a deixe chegar à tomada.

Publicado originalmente pelo Congresso em Foco.