Ormuz, o barril e a Petrobras
“Não existe almoço grátis.”
O Estreito de Ormuz tem 33 quilômetros de largura no seu ponto mais estreito. Por ali passam 20% do petróleo negociado no mundo e 17% do gás natural liquefeito global. A simples ameaça de fechamento desse corredor já é o bastante para refletir em preço mais alto do barril antes mesmo do primeiro navio ser interceptado. É a antecipação do risco, com um custo real para consumidores em todos os continentes.
Essa não é a primeira vez que isso acontece. Em agosto de 1990, com a invasão do Kuwait, o barril saltou de US$ 17 para US$ 46 em semanas. Em 2022, na guerra da Ucrânia, os Estados Unidos liberaram 180 milhões de barris de sua Reserva Estratégica — o maior uso da história do instrumento. O barril recuou temporariamente. Depois voltou a subir. A liberação anunciada esta semana de 400 milhões de barris pelos países da Agência Internacional de Energia repete esse padrão. Porém, reservas estratégicas são um analgésico, não um remédio.
Se o fechamento de Ormuz se prolongar, o mercado vai precificar a rota alternativa pelo Cabo da Boa Esperança, que adiciona 30 dias de viagem e eleva fretes na sua proporção. O choque deixa de ser momentâneo e vira estrutural. Essa distinção é fundamental e muitas vezes ignorada quando se faz política pública olhando uma foto e não um filme. Choques momentâneos são causados por especulação e prêmio de risco geopolítico: sobem rápido e recuam quando a tensão arrefece. Choques estruturais alteram custos de produção, logística e investimento de forma duradoura. Para cada um, a resposta correta é diferente. Confundir os dois é fazer política pública simplista, errada e cara.
No Brasil, o aumento do barril chega ao consumidor com uma camada extra de complicação. Não temos o preço definido por uma empresa estatal nos modelos da Venezuela ou da Arábia Saudita. Tampouco operamos em mercado plenamente livre, como nos Estados Unidos. Vivemos uma situação híbrida e institucionalmente torta, em que a Petrobras é cronicamente pressionada a cumprir um papel que não é o dela de amortecedor da volatilidade do mercado internacional de petróleo.
O fato é que a Petrobras é uma sociedade de economia mista listada em bolsa, com acionistas minoritários que investiram seu dinheiro esperando que as regras sejam cumpridas. A Lei das S.A., no artigo 117, proíbe expressamente o acionista controlador de usar a companhia em benefício próprio em detrimento dos minoritários. Usar a Petrobras como amortecedor de preços é exatamente isso — o equivalente a um controlador que aluga seu próprio imóvel para a empresa pelo triplo do valor de mercado. O Preço de Paridade Internacional, criado em 2016 para corrigir essa distorção, foi abandonado por conveniência política em 2023. O resultado é insegurança jurídica, fuga de investidores e uma empresa que deixa de ganhar dinheiro e maximizar lucros.
O governo pode agir para proteger o consumidor. Isso não está em discussão. O que está em discussão é o caminho institucional, que não passa pelo balanço da Petrobras. Em 2022, o país deu um exemplo de como fazer o certo reduzindo a CIDE e negociando com os estados o teto do ICMS. O consumidor sentiu o alívio sem que a governança da Petrobras fosse comprometida. O programa Gás para Todos, financiado pelo Tesouro, segue a mesma lógica virtuosa: o Estado arca com o subsídio de forma transparente e o custo aparece no orçamento onde deve aparecer.
Ormuz vai abrir. Os conflitos têm fim. Mas a próxima crise virá — em algum estreito, por alguma guerra, por alguma decisão que hoje não conseguimos antecipar. O Brasil precisa decidir de uma vez que tipo de Petrobras quer ter quando ela chegar: uma companhia sólida, com acesso a capital, capaz de investir e produzir — ou um cabo de guerra político que serve de colchão para o que o governo não quer pagar. As duas opções têm custo. A diferença é que o custo da segunda recai sobre o acionista minoritário, sobre o investidor estrangeiro e, no fim, sobre o próprio país. Não dá para improvisar uma governança diferente toda vez que o barril sobe. Cedo ou tarde, a conta chega.

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12 de Mar de 2026