Brasil é protagonista da segurança alimentar global mas refém da volatilidade do mercado de insumo
O que raramente se conta é que o Estreito de Ormuz, por onde passa aproximadamente 20% do consumo global de petróleo, é uma das principais artérias do mercado global de fertilizantes
O fechamento do Estreito de Ormuz não é apenas uma crise de petróleo. É algo muito mais sério, e o mundo ainda não entendeu bem a diferença. Cerca de 20 milhões de barris de petróleo por dia transitavam pelo estreito, aproximadamente 20% do consumo global de petróleo. Mas o que raramente se conta é que o mesmo gargalo é uma das principais artérias do mercado global de fertilizantes.
Os países expostos a uma disrupção na região respondem por cerca de 49% das exportações globais de ureia e aproximadamente 30% das exportações de amônia.
Irã, Arábia Saudita e Catar figuram entre os maiores exportadores de nitrogênio do mundo, respondendo juntos por cerca de 25% das exportações globais de fertilizantes nitrogenados.
O segredo desse domínio é simples: gás natural barato. No Irã e nos países do Golfo, o gás é o insumo essencial para produzir amônia e ureia a custos imbatíveis.
Portanto, a guerra não interrompeu apenas o fluxo de energia. Interrompeu o fluxo da comida. E aí começa a tempestade perfeita.
A estimativa é de que cerca de um terço do comércio global de fertilizantes foi interrompido. Ao mesmo tempo, Rússia e China estão retendo estoque. O resultado é devastador: a ureia já ultrapassou US$ 600 por tonelada métrica, e agricultores em todo o mundo não conseguem fechar contratos de fornecimento. Fertilizante mais caro significa custo maior no setor agrícola — e custo maior significa inflação no prato de comida de todos.
E o Brasil? O Brasil alimenta o mundo, mas importa mais de 85% dos fertilizantes que consome. Os fertilizantes chegam a representar 40% do custo de produção de determinadas lavouras. Soja, milho, cana-de-açúcar e café estão diretamente expostos ao choque de preços. Somos protagonistas da segurança alimentar global e, ao mesmo tempo, reféns da volatilidade do mercado de insumos.
A resposta do governo segue o caminho do subsídio ao diesel para conter o custo do frete rural. São remédios que tratam o sintoma e ignoram a doença. Subsídio ao diesel distorce a competitividade dos biocombustíveis, que são a verdadeira vantagem comparativa do Brasil. E o programa de fertilizantes subsidiado é a política do atraso do olhar para o retrovisor.
As soluções estruturais e de mercado existem: no diesel, o Preço de Paridade de Importação (PPI), além de revisar a tributação e ampliar a concorrência no refino. Nos fertilizantes, a solução é aumentar a oferta de gás, reduzindo a reinjeção, explorando o gás não convencional e reduzindo o poder dominante da Petrobras.
Diante dessa tempestade perfeita em que passaremos a viver um novo normal, o atual governo brasileiro insiste na política do retrovisor repetindo os erros de sempre.

Espaço Adriano Pires
27 de Abr de 2026