Novo normal: segurança energética e segurança alimentar tornaram-se indissociáveis
No Brasil, deveríamos aproveitar as nossas vantagens comparativas de sermos um dos responsáveis pela segurança alimentar no mundo e de termos uma grande diversidade energética e mineral para nos posicionarmos na pole position
O mundo vive mudanças profundas na geopolítica da energia que vieram para ficar. Mais do que provocar oscilações nos preços do petróleo, presenciamos agora que a principal preocupação é com a segurança energética. O mundo entrou em um novo cenário, no qual petróleo, gás natural e fertilizantes passaram a compor uma mesma equação estratégica. Garantir o abastecimento de energia deixou de significar apenas assegurar combustíveis; passou também a ser condição essencial para a produção de alimentos. Em outras palavras, segurança energética e segurança alimentar tornaram-se indissociáveis. Ou seja, estamos vivendo um “novo normal”.
O principal foco de atenção hoje é o Estreito de Ormuz. Por essa rota estratégica transitam aproximadamente 25% do petróleo consumido no mundo, além de volumes expressivos de gás natural e fertilizantes. Qualquer ameaça à livre navegação eleva a percepção de risco nos mercados, amplia a volatilidade das cotações internacionais de energia e pressiona os custos dos insumos agrícolas e dos alimentos.
Entretanto, atribuir esse “novo normal” apenas ao Oriente Médio seria ignorar uma transformação mais profunda que começou com a guerra entre Rússia e Ucrânia. As sanções impostas à Rússia evidenciaram que o gás deixou de ser apenas uma fonte de energia para tornar-se insumo estratégico para a produção de fertilizantes. Ficou claro, desde então, que interrupções no abastecimento energético podem comprometer a produção agrícola e acelerar a inflação dos alimentos.
Três protagonistas da segurança energética e alimentar global estão diretamente envolvidos na construção desse “novo normal”. A Rússia, o Oriente Médio e os Estados Unidos, todos envolvidos em conflitos e guerras sem prazo para terminar.
No Brasil, deveríamos aproveitar as nossas vantagens comparativas de sermos um dos responsáveis pela segurança alimentar no mundo e de termos uma grande diversidade energética e mineral para nos posicionarmos na pole position do novo normal. Para isso, precisamos começar revendo a nossa política de licenciamento ambiental, que hoje impede investimentos que levariam o País a uma maior soberania energética, alimentar, mineral e tecnológica.
A grande lição desse novo contexto é que petróleo, gás e fertilizantes deixaram de ser mercados independentes. Hoje, choques geopolíticos repercutem simultaneamente sobre os mercados de energia, a produção de alimentos e, consequentemente, na inflação. Mais do que acompanhar a cotação do barril, compreender o mercado de petróleo passou a exigir uma visão integrada da segurança energética e da segurança alimentar – duas agendas que permanecerão no centro das discussões econômicas e geopolíticas.

Espaço Adriano Pires
3 de Ago de 2026