Brasil tem a oportunidade de construir mercado de gás verdadeiramente doméstico e competitivo
Privilegiado em fontes primárias de energia, o País ainda não foi capaz de explorá-las de maneira a se tornar um exportador líquido energético e agora vive um momento estratégico único
O Brasil atravessa um momento estratégico único. O fechamento do Estreito de Ormuz em 28 de fevereiro de 2026 — responsável pelo escoamento de 20-25% do petróleo mundial e 30-35% dos fertilizantes — escancarou uma vulnerabilidade conhecida, mas insistentemente ignorada: a ausência de um projeto nacional de segurança energética e alimentar. O Brasil é um país privilegiado de fontes primárias de energia, mas até o presente não foi capaz de explorar tais fontes de maneira a se tornar um exportador líquido energético.
A ausência de investimentos de refino, processamento, escoamento e transporte de combustíveis e gás é emblemática. Essa falta de investimentos cobra um preço muito alto aos consumidores. Exemplo disso é o mercado de diesel e gás natural.
Devido à falta de investimentos privados em novas refinarias, o Brasil exporta 45% da sua produção de petróleo e importa entre 5% e 10% de gasolina e 25% a 30% de diesel, produtos de maior valor agregado. No caso do gás, o déficit de investimentos em infraestrutura nos leva a reinjetar mais de 100 milhões/m³/dia, restringindo a oferta interna, e acaba sendo um dos fatores que mantêm os preços do gás elevados.
Segundo nossas estimativas, a eliminação de gargalos de infraestrutura possibilitaria a redução dos níveis de reinjeção para patamares de 35%. Portanto, um efeito líquido na produção de até 33,5 milhões/m³/dia, praticamente o dobro do volume importado de gás ao longo de 2025.
O Brasil tem a oportunidade de construir um mercado de gás verdadeiramente doméstico e competitivo. A expansão da malha de gasodutos, a viabilização do gás não convencional e o crescimento do biometano são os três vetores dessa agenda.
O setor elétrico brasileiro carrega uma contradição central: nunca teve tanta capacidade instalada, nunca foi tão dependente do clima e o excesso de energia eólica e solar traz risco de apagões. A rápida expansão sem planejamento de fontes intermitentes comprimiu a reserva hídrica de 5,9 meses (2004) para 3,1 meses (2026), tornando o sistema elétrico altamente sensível a eventos climáticos. Com isso, as térmicas são o pilar da segurança energética.
Construamos políticas aderentes com a grandeza dos nossos recursos naturais e ancoradas nos segmentos-chaves da atividade brasileira, como o agronegócio e o setor de energia. Países que dominam sua cadeia energética exportam segurança.
O Brasil tem cana, milho, soja, vento, sol, petróleo, gás natural, carvão e urânio. O que falta não é recurso. É vontade política e planejamento de Estado. O conflito no Oriente Médio é uma janela: ou o Brasil aproveita, ou volta a lamentá-la na próxima crise.

Espaço Adriano Pires
6 de Jul de 2026