E quando essa tempestade passar? As energias renováveis pós-Covid-19

Por Adriano Pires e Fernanda Delgado para a Revista Opiniões.

O setor de energia renovável está sentindo os efeitos da pandemia do coronavírus (Covid-19) e dos baixos preços do barril de petróleo. O novo contexto, que está acometendo a economia global e as expectativas de curto prazo, nos fez recobrar o quão importante é a evolução da oferta e da demanda petrolífera para os mercados. No entanto é preciso estar atento às implicações desse novo cenário, também, nas cadeias que concorrem com o petróleo e seus derivados, como é o caso das energias renováveis.

A crise de coronavírus pode ser a grande oportunidade ou a derrocada da transição energética no mundo? Essa é uma questão que se coloca para o pós-crise. Desde o início de Abril, já começaram a surgir histórias de empresas de energia renovável sendo afetadas pela desaceleração econômica e queda dos preços do petróleo.

O trauma macroeconômico causado no mundo pela Covid-19 criou inúmeras incógnitas sobre a matriz energética mundial, e é difícil prever o comportamento dos investimentos em energias renováveis.

Nos EUA, a pandemia colocou o pipeline de projetos de curto prazo do setor de energia eólica em risco – 44 GW e cerca de 35.000 empregos. Já na Europa, os projetos parecem mais otimistas e corajosos, e os investimentos até agora estão “nos trilhos”.

Nos biocombustíveis, a questão também é mundial. Na Europa, os produtores estão reduzindo ou direcionando a produção para matéria-prima do álcool desinfetante para as mãos. Na Ásia, os esforços para ampliar o uso dos biocombustíveis estão sendo prejudicados. E, nos Estados Unidos, as usinas de etanol de milho estão fechando.

Os EUA se tornaram o novo epicentro da pandemia da Covid-19 no momento em que se inicia a safra 2020/2021. Além disso, a gasolina no país atingiu a maior redução observada em 20 anos, apresentando os preços na bomba abaixo de US$ 1 por galão em alguns estados. Com a depreciação nos preços dos combustíveis, as empresas esmagadoras de milho para a produção de etanol e outros derivados começaram a ter margens negativas.

Os produtores de biocombustíveis e os agricultores norte-americanos comercializam cerca de um terço de suas colheitas de milho com a indústria de etanol. Com mais 200 usinas de etanol existentes no país, é certo que a produção será reduzida ou ficará ociosa. Em reunião realizada recentemente, industriais resolveram fechar, temporariamente, 30 plantas processadoras de etanol de milho nos EUA,  até que as margens melhorem.

Com base em dados das restrições e estatísticas da Covid-19 da US Energy Information Administration (EIA), economistas da Universidade de Illinois estimaram que o consumo de etanol nos EUA cairá 143 milhões de galões em março, 391 milhões de galões em abril e 207 milhões galões em maio de 2020, uma redução total de 741 milhões de galões em três meses. Com a queda da demanda, os produtores estão buscando por armazenamento e tancagem.

Os produtores norte-americanos de etanol, que já vinham sofrendo com percalços, como clima severamente adverso e a guerra comercial com a China, agora contam com novos desafios. Diante das dificuldades, a indústria de etanol dos EUA decidiu pleitear com o governo de Donald Trump tratamento equivalente ao dado à indústria petrolífera do país. A categoria pediu que o governo não conceda mais isenções ao cumprimento das regras do Padrão de Combustíveis Renováveis (Renewable Fuel Standard – RFS, em inglês). Também houve solicitação de concessão de crédito e de redução de impostos.

No Brasil, os produtores de biocombustíveis, sobretudo os do setor sucroalcooleiro, estão passando por dificuldades semelhantes. A previsão de queda significativa da demanda por combustíveis afetará em cheio o setor de etanol. Diante disso, as distribuidoras e revendedoras serão obrigadas a aumentar seus estoques, em função das obrigações contratuais com os fornecedores.

Aparentemente, a indústria brasileira de etanol e biodiesel não resistirá a essa crise caso o preço do petróleo permaneça em níveis próximos aos US$ 20-25 por barril. Portanto são necessárias ações urgentes para que a indústria consiga resistir. Seria favorável ao setor a imposição do Imposto de Importação ao óleo cru e/ou o aumento da alíquota da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (CIDE-Combustíveis) para a gasolina e o diesel. Outra medida interessante seria a criação de uma linha de financiamento do BNDES atrelada ao programa federal RenovaBio, de forma a garantir, ao menos,  a manutenção dos investimentos em produtividade. A ausência de medidas em auxílio aos biocombustíveis pode acometer, ainda neste ano, um pedaço relevante dos mais de um milhão de empregos do setor no interior do Brasil.

Diante desse cenário, a questão maior é como a transição energética e as indústrias de energias renováveis vão emergir no período “pós-Covid-19” e quais perspectivas para esse mercado. Como o historiador Yuval Noah Harari colocou sobre os possíveis resultados geopolíticos da pandemia, “Devemos nos perguntar não apenas como superar a ameaça imediata, mas também que tipo de mundo vamos habitar quando a tempestade passar”.

O chefe da Agência Internacional de Energia (AIE), Fatih Birol, pediu aos governos de todo o mundo que aumentem os gastos em tecnologias como eólica, solar, hidrogênio e captura e armazenamento de carbono (CCS) em seus planos de estímulo econômico, acelerando a transição para uma matriz mais limpa.

O tamanho e a forma das oportunidades para as energias renováveis dependerão, em grande parte, de como as empresas internacionais de petróleo redirecionarão seus investimentos de capital – ou se os governos compreenderão a provocação e canalizarão os subsídios aos combustíveis fósseis para o desenvolvimento de uma matriz energética mais limpa e renovável.

No curto prazo, mercados terão que se adaptar a um novo cenário energético, no qual os insumos de produção de energia não se encontram nas mãos de poucos produtores. Nesse sentido, novas dinâmicas de mercado, que não focam em ciclos de apenas uma commodity, terão que ser desenvolvidas e estabelecidas.

Note-se que a interseção entre geopolítica e energia ocorre há mais de um século em torno do mercado de combustíveis fósseis. Esse panorama deve mudar com a inserção dos renováveis na matriz energética global. Por mais que existam incertezas em torno do processo, um domínio global do sistema energético por renováveis tende a gerar um mercado mais estável, calmo e justo.

O caminho para que se alcance isso é, contudo, desconhecido, mas certamente reside no desenvolvimento de ideias e tecnologias inovadoras. O mundo pós-coronavírus pode ajudar, na medida, que investimentos que permitam melhorar a qualidade de vida deverão ser privilegiados.  E o setor de energia e saneamento é foco, devido à questão do clima e da atual crise ser, antes de mais nada, uma crise da saúde pública.

Em suma, futuramente, no longo prazo, combustíveis fósseis continuarão sendo uma opção energética, mas não mais a majoritária. Haverá, ao invés disso, diversidade energética com foco em baixa emissão de gases de efeito estufa. O mercado energético mundial tenderá a ser mais desconcentrado, mais regionalizado e com multipolaridade de agentes. Por consequência, mercados convergirão para estabilidade, e conflitos geopolíticos serão suavizados.

(Fonte:  Opiniões)

Adriano Pires é sócio fundador e diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE).

Fernanda Delgado é professora e pesquisadora da FGV Energia.

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