Conta mais cara e PIB baixo vêm salvando país de racionamento, diz Pires

Por Fontes Externas

Para Adriano Pires, do Centro Brasileiro de Infraestrutura, o sobe e desce dos preços só diminuirá com mais térmicas e geração nuclear na matriz brasileira

 

Por Luisa Purchio para Veja.

 

Com chuvas muito abaixo da média histórica, o Brasil vive mais uma crise energética – a terceira no âmbito nacional em 20 anos. Como se não bastasse o seu poder aquisitivo minguado durante a crise da Covid-19, o brasileiro se depara com contas de energia elétrica mais caras e até um risco de apagão. Em maio, o IPCA subiu 0,83%, puxado pelo aumento de mais de 5% nas contas de energia. Para Adriano Pires, co-fundador e diretor do Centro Brasileiro de Infra Estrutura, o país errou ao apostar demais em fontes de energia intermitentes, como as hidrelétricas, e ficou clara a importância de se diversificar a matriz energética para apagar de vez a luz de emergência no país.

 

Como a crise energética vai impactar no bolso do consumidor?

O que eu posso afirmar é que a tarifa vai subir muito e causar grande impacto na inflação. Não tem uma conta ainda, precisamos esperar para ver, mas será mais uma dificuldade para a retomada do crescimento econômico.

 

Estamos de tempos em tempos suscetíveis à falta de energia. Onde está o erro?

Vivemos sempre de sobressaltos e pesadelos porque temos, desde 2001, uma matriz energética desequilibrada, com muita fonte renovável e intermitente que nos faz reféns do clima. Todo ano temos de torcer para chover, e quando não chove torcemos para o Brasil não crescer. A gente erra na matriz energética brasileira há 20 anos. As crises energéticas que ocorreram em 2001 e 2002, em 2014 e 2015 e agora em 2021 têm em comum a falta de água. Nos anos 2000, até 90% da geração da matriz de eletricidade brasileira era feita com água. Como pode um país como o Brasil ser depende de uma única fonte que depende do clima?

 

Por que considera equivocado o crescimento exagerado de fontes alternativas?

O problema é que se chegou a um desequilíbrio. No primeiro governo do presidente Lula, a ministra Marina Silva proibiu a construção de hidrelétricas com reservatórios, então dali para frente só passou a ser permitido hidrelétrica com fio d’água, ou seja, também intermitentes porque só geram energia quando se tem água, o que acabou com as usinas com reservatórios e confiabilidade. A partir de 2009, se optou em construir uma matriz energética brasileira baseada em fontes intermitentes. Já éramos reféns da água e passamos a ser reféns do vento e do sol. Precisamos misturar fontes intermitentes e renováveis a outras que deem mais confiabilidade. Na medida que perdermos as usinas dos reservatórios, essas fontes são as térmicas. Aliás, elas têm salvado o Brasil de racionamentos bem maiores.

 

Quem ganha com esta matriz energética desequibrada?

Os comercializadores de energia – todos os bancos têm uma. Não é ruim tê-los, é bom, mas o problema de hoje é o desequilíbrio. Precisamos investir em aumentar a confiabilidade do sistema e quem vai trazer isso são as térmicas. O governo anunciou que vai fazer um leilão de capacidade em dezembro, para estimular fazer térmicas a gás. Isso poderia ter sido feito há cinco, seis anos atrás.

 

Como ligar as usinas térmicas pode ser uma solução se elas são mais caras e poluentes?

Depende. Hoje se espera secar a hidrelétrica e, quando o reservatório está vazio, se aciona todas as térmicas de uma vez, o que joga o preço lá para cima de repente. Temos as térmicas a gás de 250 a 500 reais e de 1 mil a 1,7 mil reais. Se nos últimos anos tivéssemos ligado de 70% a 80% do tempo as térmicas a gás de 250 e 300 reais, não teríamos risco de falta de energia agora.

 

Como assim?

Elas funcionariam como uma espécie de bateria virtual, para expandir a oferta de energia eólica e solar sem que haja risco de faltar energia. O Brasil é privilegiado em relação à diversidade de energia, temos água, vento, sol, biomassa, gás natural. A médio prazo, também deveríamos aumentar a participação da energia nuclear, que é limpa e traz muita confiabilidade. Se a gente conseguisse construir essa matriz equilibrada, nunca mais teríamos grandes volatilidades no preço de energia no Brasil e muito menos risco de falta de energia. Não existe energia ruim, o ruim é não ter energia.

 

Como ocorreu o racionamento de energia em 2001?

Ele aconteceu porque não tínhamos térmicas. O que evitou um racionamento pior foi a redução do consumo de energia em função do aumento de tarifas. Na época o governo foi muito transparente e dividiu o problema com a população. A sociedade brasileira ajudou muito e isso impediu um racionamento, além de que o governo contratou as térmicas emergenciais porque, naquela época, praticamente não tinha nenhuma no Brasil. Eram balsas geradoras à diesel, caras e poluentes, e naquela ocasião se começou a fazer térmicas com o gás vindo da Bolívia, era o chamado PPT [Programa de Priorização de Termelétricas].

 

Qual foi o impacto desse racionamento?

Além de ter impedido o crescimento da economia, ele teve efeitos políticos e ajudou muito na eleição do Lula em 2003. Com medo do racionamento, houve uma série de leilões de energia de 2003 a 2009 no Brasil, estimulando a construção de térmicas. Porém, em 2009, o planejamento mudou outra vez. Às vésperas de um leilão de usinas térmicas, a ex-presidente Dilma Rousseff o substituiu por um leilão de usina eólica em resposta a uma pressão muito grande dos ambientalistas em um ano da conferência de Copenhague. Portanto, de 2009 para frente, se começou a incentivar muito as fontes alternativas, renováveis e intermitentes, como eólicas e solares.

 

A que se deve a crise energética de 2014?

Em 2013 [antes de ser reeleita], a presidente Dilma resolveu baixar a tarifa de energia elétrica, mas, para isso, ela usou muita água do reservatório, porque as hidrelétricas sempre são as fontes mais baratas de energia no Brasil. De 2013 para cá, o regime de chuvas foi muito ruim e nunca mais os níveis de reservatórios chegaram aos níveis ótimos. Então, no meio do caminho, em 2014 [depois da reeleição], tivemos uma crise parecida com a atual. Só não houve racionamento naquela ocasião porque havia muitas térmicas, construídas no primeiro governo do presidente Lula. Aquilo impediu o racionamento entre 2014 e 2015, mas foram medidas drásticas. Ligaram todas as térmicas, as tarifas aumentaram e a hidrovia Tietê-Paraná foi paralisada por 16 meses.

 

Essas medidas drásticas podem evitar um racionamento hoje?

Agora temos uma crise hídrica muito forte e a solução é a mesma de 2014, estão aumentando as tarifas e ligando todas as térmicas. Em 2014, no governo Dilma, isso foi feito a tempo e à hora, agora acho que demoraram demais e pode ter consequências no segundo semestre. Não sei se vai faltar energia, mas o risco existe. O que tem salvado o Brasil do racionamento são as térmicas, o aumento de tarifas e o fato dessa economia brasileira crescer menos de 1% há dez anos.

 

 

Fonte: Veja

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