Ingresso na Opep não é vantajoso para o Brasil, avaliam especialistas

Arábia Saudita convidou o país para a organização dos maiores produtores de petróleo

Ramona Ordoñez para O Globo.

 

RIO – No encerramento da viagem à Ásia e ao Oriente Médio, o presidente Jair Bolsonaro recebeu um convite formal da Arábia Saudita para ingressar na Organização dos Países Exportadores de Petróleo ( Opep ). A proposta reflete a crescente importância do país no mercado internacional com as perspectivas da produção do pré-sal, mas, para especialistas ouvidos pelo GLOBO, não é vantajosa para o Brasil .

Com 3,1 milhões de barris produzidos por dia em agosto, o Brasil poderia se tornar o terceiro maior produtor da Opep, depois de Arábia Saudita e Iraque. A crescente produção brasileira é um fator que dificulta o esforço da organização — um cartel formado por 14 países formalizado em 1960 — para manter o preço internacional do petróleo no atual patamar, assim como a produção de óleo não-convencional nos EUA .

Para especialistas, ingressar na Opep não seria vantajoso para o Brasil no momento em que o país planeja acelerar a produção de petróleo, sobretudo no pré-sal. Isso porque o cartel fixa cotas para seus países membros, limitando a produção para manter o preço alto da commodity . Além disso, o Brasil não teria como limitar a operação de petroleiras privadas que atuam no país.

— Hoje, a produção da Opep é de cerca de um terço da produção mundial, não tem mais o prestígio que tinha no passado. E o Brasil não pode se sujeitar às cotas — diz o ex-diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo (ANP) David Zylbersztajn.

Para Edmar Almeida do Instituto de Economia da UFRJ, a entrada na Opep, que não contempla países democráticos produtores de petróleo, é incompatível com a estratégia do Brasil de entrada na OCDE , que reúne as economias mais desenvolvidas do Ocidente:

— Além disso, não seria uma estratégia apropriada para o Brasil porque não temos uma economia focada no petróleo. A entrada na Opep significaria abrir mão de soberania da política energética sem que isso traga vantagens comerciais importantes para o resto da economia.

Adriano Pires, do Centro Brasileiro de Infraestrutura, concorda:

— A Opep é um cartel que não funciona mais, formado por países que têm realidades muito diferentes. Seria um tiro no pé, pois entrar no cartel significa não ter mais autonomia em sua produção. Em vez de aumentar sua flexibilização, engessaria a produção. Zero de vantagem.

Bolsonaro afirmou ter recebido o convite para ingresso na Opep do príncipe herdeiro saudita Mohammed Bin Salman , a quem chamou de “irmão” e com o qual disse ter desenvolvido uma “amizade”. O presidente disse que precisaria consultar equipes do ministro da Economia, Paulo Guedes, e de Minas e Energia, Bento Albuquerque, antes de decidir sobre o convite, mas admitiu interesse:

— Particularmente, gostaríamos que integrássemos a Opep. Temos potencial para isso. Temos reservas de óleo maiores que alguns países que já integram.

Na América do Sul, a Venezuela é a única nação integrante da Opep. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou a manifestar interesse numa entrada do Brasil como membro da Opep, mas isso não se concretizou mesmo após um convite formal do Irã, em 2008.

(Fonte: O Globo)

Comments are closed.

Navigate
EnglishPortuguese