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Mudança proposta pela Petrobras pode elevar a previsibilidade no curto prazo, mas cria dúvidas sobre a concorrência futura

A adoção de uma nova política de preços com pisos e tetos proposta pela Petrobras traz um benefício inegável: reduz a volatilidade dos preços causada pelo conflito no Irã e aumenta a previsibilidade para a indústria. Isso, aparentemente, é positivo. Mas na prática pode ser uma tentativa da Petrobras de travar preços mais altos desde agora, mesmo diante de um cenário de queda esperada pelo mercado. Portanto, talvez estejamos olhando só para o curto prazo, mais especificamente para o 2º semestre de 2026, e não para as perspectivas futuras do preço do gás natural.

Analisando contratos públicos recentemente aditados, chama a atenção uma mudança na lógica econômica das renovações. Acredito que seja uma estratégia da Petrobras para se posicionar antes da chegada do gás que virá de Raia e que deve ser algo como 18 milhões/m³/dia.

No mercado livre, está “derrubando” os preços no curto prazo, oferecendo 10% do Brent para consumidores que renovarem com a empresa. Ou seja, o preço oferecido no curto prazo é bastante competitivo em relação a outros supridores –leia-se até dezembro de 2026, período em que as faixas de incentivo à demanda permanecem vigentes–, mas, nos anos seguintes, observa-se uma maior participação de indexadores além do Brent, como o Henry Hub, o que altera o perfil de risco econômico do contrato ao longo de sua vigência.

Isso não significa, por si só, que o gás ficará mais caro. Mas significa que o custo econômico do contrato deixa de ser explicado só pelo preço percebido no momento da contratação. O atual descasamento entre Brent e Henry Hub cria um ambiente extremamente favorável para essa nova política de preços da Petrobras. Porém, contratos de fornecimento de gás não são decisões de 6 meses. São compromissos de 2, 3, 5 ou até mais de 10 anos. A pergunta que fica é: “O desconto percebido na assinatura representa, de fato, o custo econômico do contrato nos próximos anos?”.

Outro ponto merece reflexão. Enquanto novos projetos prometem ampliar significativamente a oferta de gás natural no Brasil, observa-se uma forte antecipação das renovações contratuais pela Petrobras, tanto no mercado livre quanto nas distribuidoras locais. É natural que qualquer fornecedor busque fidelizar sua base de clientes. Mas, considerando a expectativa de entrada de novos volumes relevantes de gás no Brasil nos próximos anos, vale refletir sobre o momento escolhido para essa ofensiva comercial e seus possíveis efeitos sobre a dinâmica concorrencial do setor.

Trata-se de uma estratégia comercial absolutamente legítima, mas que convida a uma discussão maior: o espírito do TCC firmado entre Petrobras e Cade, em 2019, e agora a tentativa de mudança regulatória dando acesso a terceiros aos gasodutos de escoamento da produção, do processamento e do gas release tem o objetivo de estimular um mercado mais competitivo. Diante dessa nova política de preços da Petrobras, vale perguntar se estamos caminhando para uma maior pluralidade de ofertantes ou para uma nova forma de coordenação econômica do mercado. Seria isso que explicaria a enorme posição contrária da Petrobras às mudanças regulatórias, como, por exemplo, o gas release?

Não se trata de afirmar que esse movimento seja necessariamente positivo ou negativo, tampouco de questionar a legitimidade da estratégia comercial de qualquer empresa. Isso seria competência da ANP e do Cade. O debate não é sobre a Petrobras. É sobre o futuro do mercado brasileiro de gás. E talvez a pergunta mais importante neste momento não seja quanto custa o gás hoje, mas quem definirá a formação desse preço nos próximos anos.

Publicado originalmente pelo Poder360.